Terence McKenna discorre sobre os impactos históricos do uso, pesquisas e legislações sobre drogas. Entrevista concedida em 1996 (Legendado)

O ÁLCOOL COMO UM FLAGELO
Nenhuma outra droga tem tamanho efeito prejudicial sobre os seres humanos. A luta para produzir, controlar e taxar o álcool e absorver suas conseqüências sociais é parte significativa da história da evolução dos impérios mercantis dos séculos XVIII e XIX. O álcool e a escravidão costumavam andar juntos na paisagem econômica. Em muitos casos o álcool era literalmente a escravidão, enquanto o comércio triangular de escravos, açúcar e rum - junto com outras práticas da civilização européia - se espalhava sobre a terra subjugando outras culturas. O açúcar, e o álcool que podia ser produzido dele, tornou-se uma obsessão européia que distorceu seriamente a demografia das regiões tropicais. Por exemplo, nas Índias Orientais Holandesas, atual Indonésia, a política colonial pagava para as mulheres gerarem o maior número possível de filhos, visando a proporcionar trabalhadores para o cultivo intensivo do açúcar. O moderno legado dessa política é que lava, ex-centro das Índias Orientais Holandesas, é hoje em dia a ilha mais superpovoada do mundo. A maioria do açúcar terminava destilado como álcool, e o que não fosse exportado para a Europa era consumido pela população local. Uma "subclasse estupidificada" era um apêndice permanente da sociedade mercantil tanto na metrópole quanto nas colônias. E quanto à psicologia do alcoolismo e do uso de álcool? Será que existe uma gestalt do álcool e, caso haja, quais são as suas características? Dei a entender que o álcool é a droga dominadora por excelência. O álcool tem o efeito de ser estimulante da libido em doses moderadas, ao mesmo tempo em que o ego sente-se fortalecido e que as fronteiras sociais perdem um pouco de seu poder restritivo. Freqüentemente esses sentimentos são acompanhados por uma sensação de facilidade verbal, que geralmente está fora de alcance. A dificuldade disso tudo é que as pesquisas sugerem que esses efeitos voláteis são acompanhados por um estreitamento da percepção, uma diminuição na capacidade de responder às sugestões sociais e uma regressão infantil até a perda do desempenho sexual, a perda geral de controle motor e a conseqüente perda da auto-estima. A moderação na bebida parece ser o caminho óbvio. Entretanto o alcoolismo é um problema grave e constante em toda a sociedade global. Acredito que a síndrome de abuso do álcool é sintomática do estado de desequilíbrio e da tensão existente entre homens e mulheres e entre o indivíduo e a sociedade. O alcoolismo é urna condição de obsessão do ego e de incapacidade de resistir ao impulso em busca da gratificação imediata. O âmbito social em que a repressão às mulheres e ao feminino é mais nítida e brutalmente percebida acontece no episódio ou no estilo de vida do bêbado. As expressões mais negras do terror e da ansiedade engendrados pelo afastamento da matriz materna são tradicionalmente representadas nessa situação. Bater na esposa sem álcool é como um circo sem leões.

Trecho de O Alimento dos Deuses, o livro completo traduzido pode ser encontrado na aba Biblioteca.

A supressão do fascínio natural que sentem os seres humanos pelos estados alterados de consciência está ligada de forma íntima e causal com a actual situação de perigo em que se encontra toda a vida na terra. Ao suprimirmos o acesso ao êxtase xamânico, represamos as refrescantes águas emocionais que fluem de um relacionamento profundamente ligado, quase simbiótico, com a terra. Em consequência disso desenvolvem-se e perpetuam-se estilos sociais mal adaptados que encorajam a sobrepopulação, o desperdício de recursos e a intoxicação ambiental.

Os primeiros contactos entre os hominídeos e os cogumelos contendo psilocibina podem ter precedido em um milhão de anos ou mais a domesticação do gado em África. E durante este período de um milhão de anos os cogumelos não foram somente colhidos e comidos, mas provavelmente também alcançaram o estatuto de um culto.

Poucas dúvidas existem de que, em Elêusis, alguma coisa era bebida por cada iniciado, e que durante a iniciação cada um via algo totalmente inesperado, transformador e capaz de permanecer com cada iniciado como uma lembrança fortíssima para o resto da vida. É um atestado incrível da obtusidade dos eruditos da sociedade dominadora o facto de somente em 1964 alguém ter tido a coragem de sugerir que uma planta alucinogénica pudesse estar envolvida. Essa pessoa foi o poeta inglês Robert Graves, no seu ensaio Os Dois Nascimentos de Dionísio.

A televisão, pela sua natureza, é a droga dominadora por excelência. O controle do conteúdo, a uniformidade do conteúdo e a repetição do conteúdo tornaram-na um instrumento inevitável de coerção, lavagem cerebral e manipulação. A televisão induz no espectador um estado de transe que é a pré-condição necessária à lavagem cerebral. À semelhança de todas as outras drogas e tecnologias, o carácter básico da televisão não pode ser modificado; a televisão não é mais reformável do que a tecnologia produtora de espingardas automáticas de assalto.

Dentre todas as escolas principais de pensamento do século XX, a psicologia jungiana foi a única que procurou confrontar alguns dos problemas tão fundamentais ao xamanismo. A alquimia, que Jung estudou cuidadosamente, foi a herdeira de uma longa tradição de técnicas xamanísticas e mágicas, bem como de procedimentos químicos mais práticos como a metalurgia e o embalsamento.

Sob a influência do DMT o mundo torna-se um labirinto árabe, um palácio, uma jóia marciana mais do que possível, vasta com motivos que enchem a mente embasbacada com espanto complexo e mudo. A cor e a sensação da proximidade de um segredo que destranca a realidade permeia a experiência. Há uma sensação de outros tempos, da nossa própria infância, e de espanto, espanto, e mais espanto. É uma audiência com o núncio alienígena.

Cada intoxicante, cada esforço para recapturar o equilíbrio simbiótico do relacionamento ser humano-cogumelo no Éden perdido de África, é uma imagem mais pálida e mais distorcida do mistério original do que o intoxicante anterior. O retrocesso dos elementos sacramentais na religião do antigo Próximo Oriente deve ter levado desde os cogumelos, passando pelo mel e pelas frutas fermentadas, até ao surgir da uva como planta favorita para fazer vinho. Com o tempo, e frequentemente no seio das mesmas culturas, os cereais fermentados foram manipulados experimentalmente para produzir os primeiros tipos de cerveja.

De um ponto de vista histórico, restringir a disponibilidade de substâncias viciantes deve ser visto como um exemplo particularmente perverso de pensamento dominador calvinista – um sistema no qual o pecador deve ser punido neste mundo ao ser transformado num consumidor explorável e impotente, punido pelo seu vício ao ser despojado do seu dinheiro pela combinação entre o crime e o governo que proporciona as substâncias viciantes. A imagem é mais horrífica do que a da serpente que se devora a si prórpia – é mais uma vez a imagem dionisíaca da mãe que devora os filhos, a imagem de uma casa dividida contra si mesma.

A súbita introdução de um poderoso agente descondicionante como o LSD teve o efeito de criar uma deserção em massa dos valores comunitários, em especial os valores baseados numa hierarquia dominadora acostumada a suprimir a consciência e a percepção.

O Revivalismo Arcaico é um clarim exortando-nos a recuperar o nosso direito de nascença, por mais desconforto que isso nos cause. É um chamado para percebermos que a vida vivida na ausência da experiência psicadélica sobre a qual se baseia o xamanismo primordial é uma vida trivializada, negada, escravizada ao ego e ao seu medo de dissolução na misteriosa matriz de sentimento que nos envolve. É no Renascimento Arcaico que reside de facto a nossa transcendência do dilema histórico.

A dissolução do racionalismo ocidental encontra-se bastante avançada, como qualquer um poderá confirmar lendo qualquer livro actual de divulgação sobre cosmologia ou física quântica. Não obstante, eu gostaria de atiçar ligeiramente o fogo adicionando o conceito de algum tipo de nexo interdimensional que se obtém de forma mais confiável e directa através do uso de alucinogénios indóis com longa história de uso e co-evolução humana. Compostos assim actuam aparentemente como reguladores da mudança cultural, e podem ser um meio de obter-se acesso à intencionalidade de algum sistema auto-regulador de grandes dimensões.

Talvez seja esta a Supermente da espécie, ou uma espécie de “mente planetária”, ou talvez tenhamos sido bairristas na nossa busca de inteligência não-humana, e outra espécie inteligente, ainda que totalmente diversa, compartilhe connosco a terra.

Que significado tem o facto do esforço da farmacologia no sentido de reduzir a mente à máquina molecular confinada ao cérebro nos ter levado, na volta, a uma visão da mente que argumenta em favor das suas proporções quase cósmicas? As drogas parecem ser os agentes potenciais tanto da nossa involução até ao estado animal quanto da nossa metamorfose na direcção de um sonho luminoso de perfeição possível. “Para o homem, o homem é como uma fera errante”, escreveu o filósofo social Thomas Hobbes, “e para o homem, o homem é como um deus”. A isto poderíamos acrescentar: “E nunca o é tanto como quando usa drogas”.

O próprio tráfico de escravos era uma espécie de vício. O início da importação de mão-de-obra escrava para o Novo Mundo teve somente um objectivo, o de sustentar uma economia agrícola baseada no açúcar. A loucura pelo açúcar era tão avassaladora que mil anos de condicionamento ético cristão nada significaram. Uma explosão de crueldade e bestialidade humanas de proporções incríveis foi placidamente aceite pelas instituições da sociedade educada.

Quantas mulheres têm as suas primeiras experiências sexuais numa atmosfera de uso de álcool, assegurando que essas experiências cruciais se desenrolem totalmente em termos dominadores? O argumento mais forte para a legalização de qualquer droga é a sociedade ter conseguido sobreviver à legalização do álcool. Se podemos tolerar o uso legal do álcool, qual a droga que não poderá ser absorvida pela estrutura social?

Audiobook de The Food of  the Gods, o magnum opus acadêmico que demonstra as aptidões escolásticas de Terence McKenna, guiando nossa compreensão através de um tomo perfeitamente referenciado em ombros de gigantes sobre a relação da dieta do ser humano e o sagrado. Em seu percuso, esclaresce o impacto do estímulo de determinados alimentos em culturas humanas, enfocando substâncias polêmicas e quebrando paradigmas sobre a sofisticação de nossa própria cultura, discursando sobre as características das drogas que oferecem estrutura para a mentalidade ocidental e a consagração de enteógenos em culturas xamânicas e como fundamentos referenciados para os pensamentos místicos grego (nos mistérios do sacramento de Eleusis) e hindu (com o Soma que inspira os Vedas) (1992) (Em inglês)

O que um professor de História da USP tem a dizer sobre a História das Drogas? Palestra do Dr. Henrique Carneiro na abertura do Congresso Internacional Sobre drogas: Lei, Saúde e Sociedade, que aconteceu em Brasilia em maio de 2013.

Para saber mais acesse www.cid2013.com.br

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