
Se pararmos para olhar o universo à distância, veremos que em seus primeiros momentos ele era bem simples, era um espaço cheio de matéria, algo sem caracteres ou características. Era o que na mitologia Hindu se chama de “Turiya” – palavra que descreve algo como “sem atributos”. Leva tempo para ocorrer uma transformação em reinos mais criativos. A pré-condição para a criatividade é o desequilíbrio, o que os matemáticos atualmente chamam de Caos. Através da vida do universo, à medida em que caíam as temperaturas, surgiam estruturas compostas cada vez mais complexas. A partir do estado de fecundidade criativa, manifestava-se mais criatividade. O universo é uma máquina de fazer arte, um motor para a produção de formas cada vez mais novas de se estar conectado, e da justaposição cada vez mais exótica de elementos díspares.
Cada artista é uma antena para o Outro Transcendental. Enquanto seguirmos com nossa própria história para dentro disso e criarmos confluências únicas de nossa singularidade e sua singularidade, nós criamos coletivamente uma flecha a partir da história, do tempo, talvez até a partir da matéria, a qual vai redimir a ideia de que os humanos são bons. Esta é a promessa da arte, e sua realização nunca esteve tão perto do momento presente.
Alimento dos Deuses: Desenvolvimento de um Ecossistema Digital para a Aprendizagem Integrada de Violão Erudito e Harmonia Histórica
Autor: Christhian Beschizza
Programa: Doutorado Profissional em Educação Tecnológica – IFTM Campus Uberaba
Linha de Pesquisa:
Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), Inovação Tecnológica e Mudanças Educacionais
1. CONTEXTUALIZAÇÃO
Este projeto de Doutorado Profissional centra-se no desenvolvimento, implementação e validação de um produto educacional robusto e completo para o ensino de violão erudito. Diferentemente de uma tese acadêmica tradicional, o foco reside na criação de uma solução prática e tecnologicamente sustentável para problemas reais identificados no Conservatório Estadual de Música Renato Frateschi, em Uberaba/MG.
A contribuição principal do produto é a criação de um compêndio progressivo de repertório em notação híbrida e a adaptação sistemática da pedagogia do ensino de harmonia prática, utilizando o Partimento, ao violão. O resultado esperado é um Produto Técnico-Tecnológico de alta qualidade, gratuito e de acesso público, materializado na forma de uma Progressive Web App (PWA), denominada "Alimento dos Deuses". Esta abordagem equilibra a robustez de um aplicativo nativo com a flexibilidade e acessibilidade da web, representando uma evolução estratégica em relação à concepção original do projeto, que previa um aplicativo nativo.
O projeto aproveita seis anos de desenvolvimento prévio, que resultaram em um protótipo funcional com 650 páginas de material didático e 40 videoaulas de alta qualidade. (disponível em: www.alimentodosdeuses.com/curso) A meta é expandir este acervo para 1000 páginas, produzir 20 novas videoaulas focadas em harmonia prática e validar o produto final através de uma implementação rigorosa em contexto real de aulas de violão no Conservatório, com avaliação por especialistas como Bruno Inácio (especialista em Partimento) e Dr. Mauricio Orosco (professor de violão na UFU), assegurando o rigor técnico e a adequação pedagógica da proposta. A viabilidade é reforçada pela infraestrutura de produção já existente e pela posição institucional do pesquisador como Coordenador da Área de Cordas Dedilhadas no Conservatório, o que garante acesso direto ao campo de implementação e apoio na revisão do material por outros professores.
A viabilidade técnica deste projeto é ratificada por uma expressiva produção audiovisual consolidada no cenário cultural de Uberaba, que soma mais de 260 vídeos entre coberturas de recitais e documentários financiados por leis de incentivo. Este acervo, centralizado no ecossistema digital Alimento dos Deuses, já conta com 40 videoaulas que funcionam como uma prova de conceito amadurecida para o produto tecnológico ora proposto. Assim, a meta de expansão para as 60 aulas previstas no doutorado fundamenta-se em uma base metodológica e infraestrutural de alta qualidade, já validada pelo engajamento do público e pela prática artística do autor (disponível em: www.youtube.com/alimentodosdeuses)
2. O PROBLEMA DE PESQUISA E OBJETIVOS
A vivência profissional do pesquisador, atuando desde 2017 como docente e, a partir de 2022, como coordenador da área de cordas dedilhadas no Conservatório Estadual de Música Renato Frateschi (Uberaba-MG), permitiu a identificação de um conjunto de problemas estruturais e pedagógicos que se retroalimentam, comprometendo a eficácia do ensino de violão. Estes problemas, embora observados localmente, refletem desafios sistêmicos da rede de conservatórios mineira. O primeiro deles é a descontinuidade pedagógica, um fenômeno crônico gerado pela alta rotatividade de professores contratados por designação temporária anual. Essa dinâmica cria um cenário onde cada professor implementa sua própria metodologia, repertório e critérios de avaliação. Sem um referencial curricular comum, a transição entre docentes torna-se problemática: o novo professor não possui parâmetros objetivos para avaliar as competências já desenvolvidas, resultando em “recomeços” sucessivos que desmotivam os estudantes e impedem a construção de uma trajetória de aprendizagem sólida e progressiva.
Paralelamente, a ausência de um material didático institucionalizado agrava a fragmentação pedagógica. A dependência do método Iniciação ao Violão de Henrique Pinto (1978), ainda predominante, apresenta limitações reconhecidas pela literatura (Fernandes, 2015; Silva, 2018; Gaião & Ribeiro, 2022), como a distribuição tonal restrita, o repertório datado e, crucialmente, a ausência de uma abordagem sistemática do ensino de harmonia por condução de vozes. Essa lacuna formativa é o terceiro eixo problemático: o ensino de harmonia baseado em cifras e campo harmônico funcional, embora eficiente para a música popular, revela-se insuficiente para a compreensão do repertório erudito, que se fundamenta na sintaxe linear-contrapontística. Isso limita a capacidade dos alunos de analisar, interpretar e criar arranjos e composições de acordo com a estética da música historicamente informada, criando uma dissonância cognitiva entre a música que tocam e a teoria que aprendem. A consequência é uma formação musical incompleta, que prepara o aluno para ser um mero executor de partituras, mas não um músico com pensamento crítico e autonomia harmônica. A PWA proposta ataca diretamente esses três problemas interconectados ao oferecer um currículo unificado e estável, um material didático vasto e moderno, e uma metodologia de ensino de harmonia que é ao mesmo tempo histórica e prática. Diante deste cenário, a pesquisa se orienta pela seguinte questão central:
"Como o design, a implementação e a validação da plataforma 'Alimento dos Deuses' contribuem para a superação de lacunas no ensino de harmonia prática e leitura musical no contexto do ensino público de violão erudito?"
O objetivo geral é, portanto, desenvolver, implementar e validar esta Progressive Web App, avaliando sua usabilidade, adequação pedagógica e potencial de adoção institucional. Para alcançar este fim, foram traçados os seguintes objetivos específicos: expandir o acervo digital para 1000 páginas e 60 videoaulas, com ênfase no desenvolvimento de 40 exercícios de Partimento baseados no método de Giovanni Furno; desenvolver a PWA com funcionalidades essenciais como checklist de progresso, playlists personalizadas e capacidade offline parcial via Service Workers; estruturar o acervo em plataformas consolidadas (YouTube para vídeos, Wix para o PDF principal); implementar a plataforma no conservatório com um grupo de 30 a 40 alunos por dois anos; e, por fim, validar o produto através de múltiplas perspectivas, incluindo a aplicação do questionário System Usability Scale (SUS), a avaliação por especialistas externos e a coleta de percepções dos usuários diretos, antes de disponibilizar a solução para toda a rede de conservatórios de Minas Gerais.
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O arcabouço teórico deste projeto é construído sobre a intersecção de três pilares: a pedagogia histórica da música, com foco no Partimento e na Regra da Oitava; os princípios da psicologia cognitiva aplicados à aprendizagem musical, especificamente a Teoria da Carga Cognitiva e a notação híbrida; e os fundamentos da educação tecnológica, materializados na escolha da Progressive Web App (PWA) como veículo para o ecossistema de aprendizagem.
O resgate da pedagogia histórica constitui o núcleo da inovação didática. A Regra da Oitava (Règle de l’Octave), um esquema de harmonização padrão para os graus da escala difundido no século XVIII, é aqui revisitada não como um exercício mecânico, mas como uma ferramenta para a internalização da sintaxe tonal, conforme demonstrado por Christensen (1992). Este projeto resgata essa prática, conectando-a diretamente ao método clássico de Ferdinando Carulli, que em seu Méthode Complète pour Guitare (c. 1810) utilizou uma versão simplificada da regra como base para o ensino de acompanhamento. A abordagem de Carulli, embora pioneira, foi sucinta. A presente pesquisa expande essa conexão, não apenas aplicando a regra, mas dissecando seus componentes e adaptando-os para o desenvolvimento de uma ‘intuição harmônica’ em várias tonalidades para o violonista moderno. No violão, instrumento polifônico de tessitura média, a Regra da Oitava é particularmente eficaz, pois permite a realização simultânea do baixo, das vozes intermediárias e da melodia implícita, tornando-se uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento da percepção polifônica e da capacidade de harmonizar melodias de forma estilisticamente consciente. Complementarmente, o Partimento, prática dos conservatórios napolitanos dos séculos XVII e XVIII, é adaptado de sua origem no teclado para o violão. Diferente do ensino moderno de harmonia, que frequentemente se baseia na identificação vertical de acordes (cifras), o Partimento cultiva uma compreensão horizontal e linear da música, forçando o estudante a "realizar" as vozes superiores a partir de um baixo dado (Sanguinetti, 2012). Essa abordagem fomenta uma profunda musicalidade, baseada no reconhecimento de padrões e na aplicação de princípios contrapontísticos. A prática do Partimento está intrinsecamente ligada à teoria dos schemata (esquemas), popularizada por Robert Gjerdingen (2007). Os schemata são padrões melódicos e harmônicos estereotipados que formavam o vocabulário comum dos músicos do século XVIII. O Partimento, nesse sentido, pode ser visto como um método para internalizar esses esquemas, permitindo que o músico os reconheça, combine e varie em tempo real, seja na interpretação, na improvisação ou na composição. A adaptação sistemática desta metodologia para o violão de seis cordas representa a contribuição mais original deste projeto, preenchendo uma lacuna significativa na pedagogia do instrumento no Brasil.
A transposição do Partimento, uma prática eminentemente idiomática do teclado, para o violão moderno impõe desafios únicos que a presente pesquisa busca solucionar de forma estruturada. Primeiramente, a própria tessitura e afinação do violão exigem uma reinterpretação das realizações. Enquanto o teclado permite uma separação clara entre as mãos e uma ampla extensão, o violonista deve gerenciar a polifonia em um espaço topográfico mais restrito e com limitações físicas de digitação. Este projeto aborda tal desafio através da criação de 40 exercícios de Partimento, baseados no método de Giovanni Furno, mas inteiramente reconfigurados para o violão. As tonalidades foram selecionadas por sua idiomaticidade (Mi, Lá, Ré, Sol, Dó e seus relativos menores), e as realizações propostas exploram a condução de vozes a duas e três partes, respeitando as limitações e potencialidades do instrumento. O material didático demonstrará, por exemplo, como realizar cadências e progressões harmônicas comuns utilizando digitações eficientes e sonoridades plenas, oferecendo um modelo que vai além da simples transposição de notas, ensinando uma verdadeira "arte da realização" ao violão. Esta abordagem, que une o rigor da prática histórica com a especificidade do instrumento, é o que a diferencia de estudos anteriores, como os de Wolff (2001) e Freitas (2013), que focaram mais na análise histórica ou em instrumentos de época como a guitarra barroca.
O segundo pilar, a cognição musical, informa o design instrucional do material. O segundo pilar, a cognição musical, informa o design instrucional do material. A Teoria da Carga Cognitiva (CLT), desenvolvida por John Sweller (1988), postula que a memória de trabalho humana é limitada e que o design instrucional deve gerenciar cuidadosamente a carga cognitiva para otimizar a aprendizagem. A CLT distingue três tipos de carga: intrínseca (a complexidade inerente ao material), extrínseca (a carga imposta pela forma como a informação é apresentada) e germane (o esforço mental dedicado à construção de esquemas e à aprendizagem profunda). A leitura musical no violão impõe uma carga intrínseca elevada devido à redundância de alturas (a mesma nota pode ser tocada em diferentes posições e por diferentes dedos) e à complexidade da cadeia decisional. Este projeto atua diretamente na redução da carga extrínseca e na promoção da carga germane. A principal ferramenta para isso é a notação híbrida (partitura + tablatura), que apresenta simultaneamente a informação musical abstrata (partitura) e sua localização topográfica específica (tablatura), resolvendo a ambiguidade e reduzindo o esforço de decodificação (Price, 2010; Bogo, 2006). Além disso, o próprio ecossistema da PWA é desenhado para gerenciar a carga cognitiva: ao integrar vídeo, áudio e partitura em uma única interface, ele elimina o "efeito de atenção dividida" (split-attention effect), que ocorre quando o aluno precisa alternar entre diferentes fontes de informação (e.g., um livro e um vídeo). As ferramentas de checklist e playlists, por sua vez, ajudam a gerenciar a carga intrínseca, permitindo que o aluno segmente o vasto conteúdo em metas de aprendizagem menores e gerenciáveis, promovendo um sentimento de progresso e autoeficácia.
Finalmente, a educação tecnológica justifica a escolha da Progressive Web App (PWA) como plataforma. As PWAs representam uma evolução das aplicações web, utilizando tecnologias como Service Workers e Web App Manifests para oferecer uma experiência de usuário robusta, que inclui a capacidade de funcionamento offline, instalabilidade na tela inicial e atualizações automáticas, sem as barreiras de custo e distribuição das lojas de aplicativos. Esta tecnologia, alinhada aos princípios do Mobile Learning (m-learning), promove o acesso flexível e a equidade digital, permitindo que o estudo se adapte à rotina e às condições de conectividade dos alunos da rede pública (Gohn, 2011).
A decisão de migrar para uma arquitetura PWA fundamenta-se em critérios de viabilidade técnica, acessibilidade universal e sustentabilidade a longo prazo. Uma PWA é, em essência, um website que incorpora tecnologias modernas para oferecer uma experiência de usuário similar à de um aplicativo, sendo multiplataforma por natureza e funcionando em qualquer dispositivo com um navegador (Android, iOS, desktop), o que elimina a necessidade de desenvolver e manter múltiplas e custosas bases de código. A tecnologia permite que a aplicação seja instalável na tela inicial do dispositivo, mas contorna a necessidade de publicação e aprovação nas lojas de aplicativos (App Store/Google Play), simplificando drasticamente a distribuição e permitindo atualizações automáticas e transparentes para o usuário. Crucialmente, o uso de Service Workers permite que a PWA funcione com capacidades parciais mesmo sem conexão à internet (offline-first), armazenando em cache os conteúdos já visitados, um requisito fundamental para a inclusão digital de alunos com acesso limitado a dados. Esta arquitetura, que combina a PWA com a hospedagem de vídeos no YouTube e do material didático em PDF no website já existente, representa uma solução otimizada, de manutenção simplificada e de baixo custo, garantindo a longevidade e atualizações do projeto para além do período do doutorado.
4. O PRODUTO EDUCACIONAL TECNOLÓGICO
O produto educacional é um ecossistema digital composto por três componentes integrados, com a Progressive Web App (PWA) "Alimento dos Deuses" atuando como o núcleo centralizador.
Componente 1: Progressive Web App (PWA)
A PWA será desenvolvida utilizando tecnologias web consolidadas (HTML5, CSS3, JavaScript) e enriquecida com funcionalidades modernas. O uso de um Web App Manifest permitirá que os usuários a adicionem à tela inicial de seus dispositivos, proporcionando uma experiência de acesso rápido similar a um aplicativo nativo. Os Service Workers serão implementados para gerenciar o cache de forma inteligente, permitindo que a aplicação e o conteúdo textual já acessado funcionem offline, uma característica essencial para garantir o acesso por alunos com conectividade intermitente. As funcionalidades interativas, como o sistema de checklist para acompanhamento de progresso e a criação de playlists personalizadas, utilizarão o LocalStorage do navegador, uma solução simples e eficaz que mantém os dados do usuário no seu próprio dispositivo, sem a necessidade de um banco de dados remoto. A interface será mobile-first, garantindo uma experiência de uso otimizada em smartphones, e integrará um visualizador de PDF (via PDF.js) e o player de vídeo do YouTube (via API), centralizando a experiência de aprendizagem.
Componente 2: Acervo de Videoaulas no YouTube
O acervo audiovisual será composto por 60 videoaulas (40 existentes e 20 novas), todas hospedadas gratuitamente na plataforma YouTube. Esta escolha estratégica elimina os custos de hospedagem e aproveita a infraestrutura de streaming de vídeo mais robusta e difundida do mundo. As aulas serão organizadas em playlists temáticas (Fundamentos do Violão e Estudo de Repertório) e produzidas com uma estética audiovisual de alta qualidade, buscando um padrão cinematográfico na iluminação, enquadramento e edição para maximizar o engajamento e a clareza das demonstrações.
Componente 3: Material Didático em PDF
O coração do conteúdo pedagógico é um e-book em formato PDF, expandido para 1000 páginas. Este documento, que constitui o compêndio histórico de repertório e teoria, será hospedado na plataforma Wix e acessível tanto para download quanto para visualização direta e também será hospedada indepdendentemente na PWA para uso offline. O material está organizado em duas grandes partes: a Parte I - Fundamentos (300 páginas), que aborda a técnica instrumental, a leitura musical progressiva e a integração aprofundada sobre a Regra da Oitava e o Partimento; e a Parte II - Repertório (700 páginas), que apresenta centenas de peças em capítulos de ordem cronológica, desde o período medieval até o século XX com seleções representativas do violão brasileiro. Todas as peças serão apresentadas em notação híbrida (partitura e tablatura), acompanhadas de digitações otimizadas e notas de contexto. O diferencial pedagógico deste ecossistema reside na integração multimodal eficiente, na adaptação inédita de práticas históricas ao violão, no uso sistemático da notação híbrida para reduzir a carga cognitiva e, fundamentalmente, na promoção da autonomia e do acesso equitativo através de uma plataforma gratuita e multiplataforma.
5. METODOLOGIA
A presente pesquisa é de natureza aplicada com abordagem predominantemente qualitativa, sendo orientada pela Design-Based Research (DBR), ou Pesquisa Baseada em Design. Esta metodologia é particularmente adequada ao escopo de um doutorado profissional, pois se concentra na criação e no refinamento de soluções para problemas práticos em contextos educacionais autênticos (Wang & Hannafin, 2005). A DBR é um processo intrinsecamente iterativo que integra o design de artefatos — neste caso, a PWA e seu conteúdo pedagógico — e a pesquisa teórica, gerando conhecimento que é, ao mesmo tempo, localmente útil e teoricamente relevante. Conforme Mygdanis (2025), a DBR em educação musical permite que o pesquisador atue como um "designer-pesquisador", desenvolvendo, implementando, analisando e redesenhando intervenções pedagógicas em ciclos contínuos. O projeto será executado ao longo de 48 meses, estruturado em cinco fases principais, conforme o modelo DBR:
Cronograma
1: Diagnóstico e Planejamento
2026
Revisão bibliográfica sobre Partimento e PWAs;
Diagnóstico com professores dos CEM-MG;
Design da arquitetura da informação e wireframes da PWA.
2: Desenvolvimento I
2026 - 2027
Expansão do e-book para 1000 páginas (350 páginas novas);
Produção de 20 videoaulas sobre Partimento e Regra da Oitava.
3: Desenvolvimento II (Tecnológico)
2027 - 2028
Desenvolvimento iterativo da PWA (Versões Alpha e Beta);
Implementação de Service Workers para modo offline.
4: Implementação e Validação
2028 - 2029
Uso oficial da PWA no CEM Renato Frateschi com 30-40 alunos;
Coleta de dados (SUS, escalas Likert, diário de campo).
5: Finalização e Disseminação
2030
Triangulação de dados e avaliação por especialistas;
Publicação oficial e disseminação para a rede de conservatórios.
A Fase 1 (Diagnóstico e Planejamento, 2026) é fundamental para ancorar o projeto na realidade do campo. Envolverá uma revisão sistemática da literatura sobre Partimento e design de PWAs na educação, seguida por um diagnóstico com professores dos CEM-MG, via questionários, para mapear as práticas e necessidades atuais. Esta fase culminará no design da arquitetura da informação e na criação de wireframes e um protótipo navegável da PWA. As Fases 2 e 3 (Desenvolvimento, 2026-2027) constituem o principal período de produção. Serão dedicadas à expansão do e-book para 1000 páginas, com a redação de 350 páginas novas de conteúdo, e à produção das 20 novas videoaulas focadas em Partimento e Regra da Oitava. Em paralelo, ocorrerá o desenvolvimento iterativo da PWA, desde a versão Alpha (com funcionalidades básicas de navegação e visualização) até a versão Beta, plenamente funcional. A Fase 4 (Implementação e Validação, 2028-2029) é o núcleo da pesquisa de campo. A PWA será implementada como recurso oficial com 30-40 alunos no CEM Renato Frateschi por dois anos letivos. Durante este período, serão coletados dados contínuos de usabilidade, percepção pedagógica e engajamento, permitindo ajustes finos na plataforma. A Fase 5 (Finalização e Disseminação, 2030) será dedicada à análise consolidada e triangulação de todos os dados coletados, à redação da documentação final do doutorado, e à publicação oficial da PWA, acompanhada de um vídeo tutorial de uso para professores e para alunos, garantindo sua disseminação para toda a rede de conservatórios.
A validação do produto será um processo multifacetado, combinando instrumentos quantitativos e qualitativos para triangular os dados e garantir a robustez dos resultados. A coleta de dados será realizada por meio de múltiplos instrumentos: 1) Questionário de Diagnóstico com professores da rede para mapear as práticas atuais; 2) System Usability Scale (SUS), um questionário padronizado de 10 itens para medir a usabilidade percebida da PWA, com a meta de um score superior a 70; 3) Questionários de Percepção Pedagógica com alunos, utilizando escala Likert e questões abertas para avaliar a clareza do material, a utilidade da notação híbrida e o impacto do estudo de Partimento; 4) Análise de Dados de Uso, coletados via Google Analytics na PWA e YouTube Analytics, para monitorar o engajamento, as páginas mais visitadas e o tempo de uso; 5) Observação Participante, registrada em um diário de campo semanal pelo pesquisador para capturar dificuldades e sugestões dos alunos; 6) Rubrica de Avaliação por Especialistas, onde validadores externos (Bruno Inácio e Dr. Mauricio Orosco) avaliarão o conteúdo técnico e pedagógico com base em critérios pré-definidos, com uma meta de pontuação média superior a 4.0 em 5. O produto será considerado validado se atingir as metas estabelecidas no SUS, na avaliação dos especialistas e se mais de 80% dos alunos recomendarem a plataforma.
6. RESULTADOS ESPERADOS E IMPACTO
Os resultados deste projeto se desdobram em quatro dimensões principais: o produto tecnológico finalizado, o impacto institucional, o impacto acadêmico e o impacto social. O principal resultado tangível será a PWA "Alimento dos Deuses", uma plataforma educacional gratuita e de acesso público, contendo 1000 páginas de material didático em notação híbrida, 60 videoaulas e 40 exercícios de Partimento. Espera-se que a plataforma atinja um score de usabilidade (SUS) superior a 70, seja avaliada positivamente por mais de 80% dos usuários e receba uma avaliação média superior a 4.0 (de 5) dos especialistas externos.
O impacto institucional mais imediato será a adoção da PWA como recurso pedagógico no ensino de violão no CEM Renato Frateschi, o que contribuirá para a padronização de critérios de avaliação e, principalmente, para a mitigação da descontinuidade pedagógica. Ao oferecer um currículo estruturado e um acervo completo, a plataforma servirá como uma espinha dorsal pedagógica que transcende a troca de professores, garantindo uma trajetória de aprendizagem mais coesa para os alunos. A disponibilização da plataforma para os outros 12 conservatórios da rede estadual de Minas Gerais tem o potencial de ampliar esse impacto, criando um referencial de qualidade e um modelo para a modernização do ensino de instrumentos em todo o estado.
Do ponto de vista acadêmico, a pesquisa gerará contribuições significativas. A principal delas é a adaptação inédita e sistemática da pedagogia do Partimento para o violão no contexto brasileiro, um campo de estudo ainda incipiente. Adicionalmente, o projeto fornecerá uma validação empírica do uso da notação híbrida como ferramenta para otimizar a carga cognitiva na leitura musical ao violão, e proporá um modelo de PWA para o ensino de instrumentos musicais que pode ser replicado e adaptado para outros contextos. A disseminação desses resultados se dará por meio da publicação de 2 a 3 artigos em periódicos qualificados da área (como a Revista da ABEM e a Per Musi) e da apresentação dos achados em congressos nacionais.
Finalmente, o impacto social do projeto reside na democratização do acesso a um material didático de alta qualidade. Ao ser gratuita, multiplataforma e funcional mesmo com conectividade limitada, a PWA fortalece o ensino musical público e contribui para a evolução do material didático tradicional para multimídia digital. A plataforma amplia o repertório acessível aos estudantes, muitos dos quais não teriam condições de pesquisar e conhecer a vasta quantidade de música histórica contida no acervo. Também atendemos indiretamente uma demanda de grande parte dos violonistas autodidatas, que não tem acesso a música erudita pois conhecem somente o sistema de leitura da tablatura mas não conseguem decodificar a partitura.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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