O Alimento dos Deuses

 "O Alimento dos Deuses",

de 1992, 139 páginas,

DISPONÍVEL como um audiobook em português PARA perpetuar a difusão da obra de Terence Mckenna. 

Em suas viagens pelo mundo atrás da sabedoria vegetal, o etnobotânico Terence McKenna descobriu o verdadeiro ALIMENTO DOS DEUSES. Depois de manter contato com xamãs de distintos pontos do Planeta, McKenna revela o poder de cura das plantas expansoras da consciência. Neste processo consegue mostrar claramente a fronteira entre o uso místico-religioso-ritualístico de uma planta e a sua utilização como droga.
Buscando antigos psicodélicos, passando pelo o ópio, o álcool e a Cannabis, McKenna faz um estudo científico da evolução humana através do uso de drogas até chegar ao café, ao chocolate, ao tabaco, e aos narcóticos pesados, como a cocaína e a heroína, sem falar nas drogas eletrônicas, como a televisão.
Por outro lado, procura conscientizar o leitor da existência de outras substâncias como a Ayahuasca, o LSD, o Peyote e a ancestral bebida SOMA que aproximam o ser humano dos
Deuses. Tudo escrito de uma maneira leve e agradável para que qualquer leigo possa entender as belezas e os mistérios que envolvem as plantas.

Esse e outros livros EM PDF estão disponíveis na biblioteca do site.

0. Manifesto para um Novo Pensamento Sobre as Drogas

I- Paraíso

1. Xamanismo: Arrumando o Palco

2. A Magia nos Alimentos

3. A Busca da Árvore Primal do Conhecimento

 4. Plantas e Primatas: Postais da STONED AGE

 5. O Hábito Como Cultura e Como Religião

 6. Os Planaltos do Éden

II PARAÍSO PERDIDO

7. Buscando o Soma: O Enigma Dourado dos Vedas

8. O Crepúsculo do Éden: A ereta Minóica e o Mistério de
Elêusis

9. O Álcool e a Alquimia do Espírito

10. A Balada dos Tecelões Sonhadores: Cannabis e Cultura

III- INFERNO

11. Complacências do Peignoir: Açúcar, Café, Chá e Chocolate

12. Smoke Gets in Your Eyes: Ópio e Tabaco

13. Sintéticos: Heroína, Cocaína e Televisão

IV- PARAÍSO RECONQUISTADO?

14. Uma Breve História dos Psicodélicos

15. Antevendo o Paraíso Arcaico

Epílogo: Olhando para Fora e para Dentro, na Direção de um Mar de Estrelas

...As experiências que tive durante minhas viagens foram pessoalmente transformadoras e, mais importante, me introduziram para uma nova classe de experiências que é vital para a restauração do equilíbrio em nosso meio ambiente e mundo social. Eu compartilhei a mente coletiva que é gerada nas sessões visionárias dos ahayuasqueiros. Eu presenciei os dardos mágicos de luz vermelha que um xamã pode enviar contra outro. Porém mais revelador que os feitos paranormais de magos dotados e curandeiros espirituais foram as riquezas interiores que descobri dentro de minha própria mente no ápice dessas experiências. Eu ofereço meu próprio testemunho, como qualquer um; se essas experiências aconteceram para mim, então elas também podem ser parte da experiência coletiva de homens e mulheres em qualquer lugar...

Considere um xamã que usa plantas para contactar-se a um mundo invisível habitado por inteligências não humanas. Isto parece suficiente para uma manchete nos tablóides de supermercado. No entanto, os antropólogos relatam essas coisas o tempo todo e ninguém levanta uma sobrancelha. Isso é porque nós tendemos a supor que o xamã interpreta sua experiência de intoxicação como a comunicação com os espíritos ou ancestrais. A implicação é que você ou eu iria interpretar essa mesma experiência diferente e que, portanto, não é grande coisa que alguns pobres, camponeses iletrados pensem que ele estão falando com um anjo. Xenofóbica como esta atitude é, sugere um procedimento operacional bom desde que se diga:
'Mostre-me as técnicas de seu ecstasy e julgarei sua eficácia por conta própria. '
Eu fiz isso. Esta é a minha credencial para as teorias e opiniões que detenho. Estive inicialmente chocado com o que eu encontrei: o mundo do xamanismo, de aliados, de metamorfose e magia é muito mais real do que as construções da ciência nunca serão, porque estes espíritos ancestrais e seu outro mundo podem ser vistos e sentidos, eles podem ser conhecidos, na realidade não-ordinária. Algo profundo, inesperado, quase inimaginável nos espera se voltarmos nossas investigações atentas para o fenômeno das plantas de poder xamânicas. As pessoas de fora da história ocidental, aqueles que ainda estão no tempo sonho de pré-literado, têm mantido a chama de um tremendo mistério queimando ...

Enquanto isso, silenciosamente e fora da história, o xamanismo tem prosseguido seu diálogo com um mundo invisível. O legado do xamanismo pode agir como uma força estabilizadora para redirecionar nossa consciência em direção ao destino coletivo da biosfera. A fé xamânica é que a humanidade não está sem aliados. Há forças amigáveis para a nossa luta para nascermos como uma espécie inteligente. Mas eles são quietos e tímidos; eles estão para serem procurados, não na chegada de frotas alienígenas estrelares nos céus da Terra, mas nas proximidades, na solidão deserto, na ambientação de cachoeiras, e sim, nos campos e pastagens agora muito raramente debaixo dos nossos pés.

Terence McKenna, Food of the Gods: The Search for the Original Tree of Knowledge

Quotes de "O Alimento dos Deuses"

A supressão do fascínio natural que sentem os seres humanos pelos estados alterados de consciência está ligada de forma íntima e causal com a actual situação de perigo em que se encontra toda a vida na terra. Ao suprimirmos o acesso ao êxtase xamânico, represamos as refrescantes águas emocionais que fluem de um relacionamento profundamente ligado, quase simbiótico, com a terra. Em consequência disso desenvolvem-se e perpetuam-se estilos sociais mal adaptados que encorajam a sobrepopulação, o desperdício de recursos e a intoxicação ambiental.

Os primeiros contactos entre os hominídeos e os cogumelos contendo psilocibina podem ter precedido em um milhão de anos ou mais a domesticação do gado em África. E durante este período de um milhão de anos os cogumelos não foram somente colhidos e comidos, mas provavelmente também alcançaram o estatuto de um culto.

Poucas dúvidas existem de que, em Elêusis, alguma coisa era bebida por cada iniciado, e que durante a iniciação cada um via algo totalmente inesperado, transformador e capaz de permanecer com cada iniciado como uma lembrança fortíssima para o resto da vida. É um atestado incrível da obtusidade dos eruditos da sociedade dominadora o facto de somente em 1964 alguém ter tido a coragem de sugerir que uma planta alucinogénica pudesse estar envolvida. Essa pessoa foi o poeta inglês Robert Graves, no seu ensaio Os Dois Nascimentos de Dionísio.

A televisão, pela sua natureza, é a droga dominadora por excelência. O controle do conteúdo, a uniformidade do conteúdo e a repetição do conteúdo tornaram-na um instrumento inevitável de coerção, lavagem cerebral e manipulação. A televisão induz no espectador um estado de transe que é a pré-condição necessária à lavagem cerebral. À semelhança de todas as outras drogas e tecnologias, o carácter básico da televisão não pode ser modificado; a televisão não é mais reformável do que a tecnologia produtora de espingardas automáticas de assalto.

Dentre todas as escolas principais de pensamento do século XX, a psicologia jungiana foi a única que procurou confrontar alguns dos problemas tão fundamentais ao xamanismo. A alquimia, que Jung estudou cuidadosamente, foi a herdeira de uma longa tradição de técnicas xamanísticas e mágicas, bem como de procedimentos químicos mais práticos como a metalurgia e o embalsamento.

Sob a influência do DMT o mundo torna-se um labirinto árabe, um palácio, uma jóia marciana mais do que possível, vasta com motivos que enchem a mente embasbacada com espanto complexo e mudo. A cor e a sensação da proximidade de um segredo que destranca a realidade permeia a experiência. Há uma sensação de outros tempos, da nossa própria infância, e de espanto, espanto, e mais espanto. É uma audiência com o núncio alienígena.

Cada intoxicante, cada esforço para recapturar o equilíbrio simbiótico do relacionamento ser humano-cogumelo no Éden perdido de África, é uma imagem mais pálida e mais distorcida do mistério original do que o intoxicante anterior. O retrocesso dos elementos sacramentais na religião do antigo Próximo Oriente deve ter levado desde os cogumelos, passando pelo mel e pelas frutas fermentadas, até ao surgir da uva como planta favorita para fazer vinho. Com o tempo, e frequentemente no seio das mesmas culturas, os cereais fermentados foram manipulados experimentalmente para produzir os primeiros tipos de cerveja.

De um ponto de vista histórico, restringir a disponibilidade de substâncias viciantes deve ser visto como um exemplo particularmente perverso de pensamento dominador calvinista – um sistema no qual o pecador deve ser punido neste mundo ao ser transformado num consumidor explorável e impotente, punido pelo seu vício ao ser despojado do seu dinheiro pela combinação entre o crime e o governo que proporciona as substâncias viciantes. A imagem é mais horrífica do que a da serpente que se devora a si prórpia – é mais uma vez a imagem dionisíaca da mãe que devora os filhos, a imagem de uma casa dividida contra si mesma.

A súbita introdução de um poderoso agente descondicionante como o LSD teve o efeito de criar uma deserção em massa dos valores comunitários, em especial os valores baseados numa hierarquia dominadora acostumada a suprimir a consciência e a percepção.

O Revivalismo Arcaico é um clarim exortando-nos a recuperar o nosso direito de nascença, por mais desconforto que isso nos cause. É um chamado para percebermos que a vida vivida na ausência da experiência psicadélica sobre a qual se baseia o xamanismo primordial é uma vida trivializada, negada, escravizada ao ego e ao seu medo de dissolução na misteriosa matriz de sentimento que nos envolve. É no Renascimento Arcaico que reside de facto a nossa transcendência do dilema histórico.

A dissolução do racionalismo ocidental encontra-se bastante avançada, como qualquer um poderá confirmar lendo qualquer livro actual de divulgação sobre cosmologia ou física quântica. Não obstante, eu gostaria de atiçar ligeiramente o fogo adicionando o conceito de algum tipo de nexo interdimensional que se obtém de forma mais confiável e directa através do uso de alucinogénios indóis com longa história de uso e co-evolução humana. Compostos assim actuam aparentemente como reguladores da mudança cultural, e podem ser um meio de obter-se acesso à intencionalidade de algum sistema auto-regulador de grandes dimensões.

Talvez seja esta a Supermente da espécie, ou uma espécie de “mente planetária”, ou talvez tenhamos sido bairristas na nossa busca de inteligência não-humana, e outra espécie inteligente, ainda que totalmente diversa, compartilhe connosco a terra.

Que significado tem o facto do esforço da farmacologia no sentido de reduzir a mente à máquina molecular confinada ao cérebro nos ter levado, na volta, a uma visão da mente que argumenta em favor das suas proporções quase cósmicas? As drogas parecem ser os agentes potenciais tanto da nossa involução até ao estado animal quanto da nossa metamorfose na direcção de um sonho luminoso de perfeição possível. “Para o homem, o homem é como uma fera errante”, escreveu o filósofo social Thomas Hobbes, “e para o homem, o homem é como um deus”. A isto poderíamos acrescentar: “E nunca o é tanto como quando usa drogas”.

O próprio tráfico de escravos era uma espécie de vício. O início da importação de mão-de-obra escrava para o Novo Mundo teve somente um objectivo, o de sustentar uma economia agrícola baseada no açúcar. A loucura pelo açúcar era tão avassaladora que mil anos de condicionamento ético cristão nada significaram. Uma explosão de crueldade e bestialidade humanas de proporções incríveis foi placidamente aceite pelas instituições da sociedade educada.

Quantas mulheres têm as suas primeiras experiências sexuais numa atmosfera de uso de álcool, assegurando que essas experiências cruciais se desenrolem totalmente em termos dominadores? O argumento mais forte para a legalização de qualquer droga é a sociedade ter conseguido sobreviver à legalização do álcool. Se podemos tolerar o uso legal do álcool, qual a droga que não poderá ser absorvida pela estrutura social?

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