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Improvisação - Giant Steps (John Coltrane)

Esta seção, "Improvisação", é destinada aos músicos que desejam conseguir criar música espontaneamente, empregando essencialmente a linguagem do jazz. Para que isso seja possível, serão analisados tópicos como harmonia, forma, escalas, ritmo e estratégias tradicionais de improviso.

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Encerramos essa série com a composição revolucionária Giant Steps,
ouça-a no vídeo acima e o toque junto ao playback ao fim da lição, uma contribuição ao nosso conteúdo feita por André Borela.
A seguir está sua notação:

Apesar da aparente complexidade da música, depois de assimilada harmonicamente e formalmente, são explicados de onde vêm seus artifícios de arquitetura composicional, o que permite nosso improviso.

Um adendo importante é que essa música foi composta em 1960, numa época em que estava sendo experimentado na linguagem do jazz um pensamento muito funcional a harmonia modal. Então é preciso identificar os pontos onde o compositor pensou 'funcionalmente' ou 'modalmente'.

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Formalmente, esse standard tem 16 compassos e pode ser analisado como AABB, onde:
A   | Bmaj7 - D7 | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 |

A(2)   | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - F#7 | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 |

B   | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 | Gmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

B(2)   | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

Os 4 primeiros compassos (A) anunciam a primeira progressão de acordes da música, que é repetida nos compassos 5 a 8 (A2) em outra tonalidade. O mesmo ocorre depois nos compassos 9 - 12 (B), nos quais a cadência/progressão de acordes muda de padrão; e depois se repete também em outra tonalidade (B2) nos compassos 13 - 16. É impossível entender completamente um aspecto da música totalmente isolado de outro... então vamos à análise harmônica, pressupondo que você já tenha passado pelas lições básicas sobre harmonia.

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A progressão tem 3 centros tonais (B, G e Eb) e é estruturada basicamente em funções/cadências V7 - Imaj7 e iim7 - V7 - Imaj7, feitas nas diferentes regiões harmônicas -- ou seja, modulando para entre os diferentes centros tonais.

As tonalidades modulam de uma a outra completamente (guarde esse detalhe) a cada 2 compassos, ascendendo em intervalos de terça maior, da seguinte maneira -- você pode acompanhar a gravação com seu instrumento para conseguir ouvir o centro tonal:

A   | Bmaj7 - -- | ----- - --- | Ebmaj7 - --- | --- - -- |

A(2)   | Gmaj7 - --- | ------ - --- | Bmaj7 - --- | --- - --- |

B   | Ebmaj7 - --- | --- - -- | Gmaj7 - --- | ---- - --- |

B(2)   | Bmaj7 - --- | --- - --- | Ebmaj7 - --- | ---- - --- | 

Porém, é possível ouvir outras regiões harmônicas entre esses centros tonais básicos (de cada 2 compassos). Apesar desses serem os pilares da progressão, os acordes maiores tocados entre eles têm bastante valor funcional/tonal:
A   | Bmaj7 - D7 | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 |

A(2)   | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - F#7 | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 |

B   | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 | Gmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

B(2)   | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

Todos os acordes V7 estão resolvendo em seus respectivos Imaj7; todos os iim7 estão preparando para seus respectivos V7. Os acordes Imaj7 (em branco) funcionam como "resoluções passageiras", modulações que não podem ser ignoradas mas também não têm um peso e clareza tradicionais de resolução.

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Aprofundando esta análise, vamos entender como funcionam as nuanças de consonância-dissonância, tensão, estética... Levando em conta os acordes Imaj7 explicados, nas partes A e A2 a progressão harmônica prossegue modulando em terças maiores descendentes -- Bmaj7 --> Gmaj7 --> Ebmaj7 | Gmaj7 --> Ebmaj7 --> Bmaj7. As partes B e B2 prosseguem modulando em terças maiores ascendentes -- Ebmaj7 --> Gmaj7 | Bmaj7 --> Ebmaj7. (Vale notar a coincidência e simetria matemática dessa progressão, devido a modular em terças maiores ascendentes a cada 2 compassos ser "equivalente" a modular em terças maiores descendentes a cada 1 compasso).

O que mais se percebe na música são os tradicionais encadeamentos e resoluções V7 - Imaj7 e iim7 - V7 - Imaj7. Essa sensação harmônica pode ser observada em toda a história da música ocidental, e tem a 'coloração', 'sabor', de tensão/escuridão/distância (V7, mixolídio) repousando numa sonoridade doce/clara/leve/repouso (Imaj7, jônio/maior).

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"Onde", (ou seja, a região harmônica) vai ocorrendo esses encadeamentos, é que proporciona as demais nuanças à nossa percepção. Durante a música toda, as resoluções passam por 3 centros tonais (B, G e Eb) ciclicamente, por isso a sonoridade repetitivamente cíclica.

Nas seções A e A2, como a modulação acontece em terças maiores descendentes -- 2 modulações em A e mais 2 em A2 --, os acordes Imaj7 de repouso soam um pouco mais "escuros" do que os Imaj7 de repouso das seções B e B2, que modulam em terças maiores -- 1 modulação em B e mais 1 em B2. Isso é explicado pela diferença estética dos intervalos de terça maior ascendente e terça menor descendente. Toque em seu instrumento e veja que, em relação à nota dó, mi (3ª maior asc) soa muito mais 'consonante' (claro) do que sol sustenido (3ª maior des), que soa mais 'tenso' (escuro).

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Dentre as principais escalas que podem ser usadas nesse improviso, o mais tradicional é usar a escala própria de cada centro tonal, considerando os centros tonais "passageiros" explicados. Ou seja:

A   | Bmaj7 - D7 | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 |

A(2)   | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - F#7 | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 |

B   | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 | Gmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

B(2)   | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

Onde:

B - B maior/jônio

G - G maior/jônio

Eb - Eb maior/jônio

Uma alternativa é levar em conta os centros tonais básicos, ficando:

A   | Bmaj7 - D7 | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 |

A(2)   | Gmaj7 - Bb7 | Ebmaj7 - F#7 | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 |

B   | Ebmaj7 - % | Am7 - D7 | Gmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

B(2)   | Bmaj7 - % | Fm7 - Bb7 | Ebmaj7 - % | C#m7 - F#7 |

Onde:

B - B maior/jônio

G - G maior/jônio

Eb - Eb maior/jônio

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Detalhe: ao improvisar vendo a progressão dessa maneira, soará muito "arrastado" caso a progressão harmônica original esteja sendo tocada por um instrumento que acompanha o solista. Por isso, nessas regiões (os compassos 2 e 6, mais especificamente) além de ser possível manter a escala relativa à tonalidade, é possível também improvisar como se houvesse modulado para a homônima, a tonalidade menor da tonalidade inicial (B jônio para eólio). Por exemplo, nos compassos 1 e 2, é possível ver tanto como B jônio [no compasso 1] e G jônio [no compasso 2] (primeira opção), quanto B jônio [comp. 1] e B jônio [comp. 2] (segunda opção, ignorando a resolução passageira pra G) ou B jônio [comp. 1] e B eólio [comp. 2] (terceira opção, como se fosse uma modulação para o modo menor).

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Igualmente, nos compassos 5 e 6 é possível tocar G jônio [no compasso 5] e Eb jônio [no compasso 6] (primeira opção), quanto G jônio [comp. 5] e G jônio [comp. 6] (segunda opção, ignorando a resolução passageira) ou G jônio [comp. 5] e G eólio [comp. 6] (terceira opção).

Essa terceira opção é de alto valor, pois se ajusta à escolha das notas do solo em relação ao "nível de função" (funcional vs modal) que os acordes nas seções A e A2 têm, resultando num solo de mesmo nível funcional que tem sua progressão harmônica.

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Agora estamos preparados para brincar encima desse tema. Coloque o backing track e inicie seus estudos! Caso ainda seja difícil fazê-lo, para saber melhor como aplicar as instruções desse post, leia a série de teoria musical.

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