História II: A Herança Grega

“A música grega assemelhava-se à da igreja primitiva em muitos aspectos fundamentais. Era, em primeiro lugar, monofônica, ou seja, uma melodia sem harmonia ou contraponto. Muitas vezes, porém, vários instrumentos embelezavam a melodia em simultâneo com a sua interpretação por um conjunto de cantores, assim criando uma heterofonia. Mas nem a heterofonia nem o inevitável canto em oitavas, quando homens e rapazes cantam em conjunto, constituem uma verdadeira polifonia. A música grega, além disso, era quase inteiramente improvisada. Mais ainda: na sua forma mais perfeita (teleion melos), estava sempre associada à palavra, à dança ou a ambas; a sua melodia e seu ritmo ligavam-se intimamente à melodia e ao ritmo da poesia, e a música dos cultos religiosos, do teatro e dos grandes concursos públicos era interpretada por cantores que acompanhavam a melodia com movimentos de dança predeterminados.” (A HISTORY OF WESTERN MUSIC, pg. 19).

A MÚSICA NO PENSAMENTO GREGO

 Muito se foi filosofado a respeito da música por pensadores gregos. Foi a teoria, e não a prática, que sobreviveu e afetou a música medieval.

As teorias gregas abordavam:

  • Doutrinas sobre a natureza da música, o seu lugar no cosmos, os seus efeitos e a forma conveniente de a usar na sociedade humana;

  • Descrições sistemáticas dos modelos e materiais da composição musical;

Nos ensinamentos de Pitágoras, a música e a aritmética não eram disciplinas separadas, assim, o sistema dos sons e ritmos musicais, sendo regidos pelo número, exemplificava a harmonia do cosmos.

Foi Platão, por outro lado, que expôs essa doutrina de forma completa e sistemática em seus diálogos Timeu e República.

Ptolomeu, o mais sistemático teórico musical da época, foi também o mais importante astrônomo da antiguidade; e comparou  notas musicais e intervalos a corpos celestes e leis matemáticas.

A poesia e a música eram termos quase sinônimos para os gregos. A poesia Lírica significava poesia cantada ao som da lira, o Ode e Hino também eram termos musicais além de gêneros poéticos.

“Há outra arte que imita recorrendo apenas à linguagem, quer em prosa, quer em verso […], mas por enquanto tal arte não tem nome.” (Aristóteles, Poética)

Tendo em base essas idéias dos mais importantes pensadores gregos, podemos explicar o conceito de Etos, que será muito importante para entender a teoria dos afetos em um período muito posterior.

“A doutrina grega do etos, por conseguinte, baseava-se na convicção de que a música afeta o caráter e de que os seus diferentes tipos de música o afetam de forma diferente. Nestas distinções efetuadas entre os muitos tipos de música podemos detectar uma divisão genérica em duas categorias: a música que tinha como efeito a calma e a elevação espiritual, por um lado, e, por outro, a música que tendia a suscitar a excitação e o entusiasmo. A primeira era associada ao culto de Apolo, sendo o seu instrumento a lira e as formas poéticas correlativas a ode e a epopeia. A segunda categoria, associada ao culto de Dioniso, utilizava o aulo e tinha como formas poéticas afins o ditirambo e o teatro.” (A HISTORY OF WESTERN MUSIC, pg. 22)

O etos, de forma mais simplificada, é o conceito que a música pode inspirar o indivíduo, agindo em seu caráter, vontade e conduta. Aristóteles diz que a música representa as paixões ou estados da alma, e que, ao ouvir música nos inspiramos com brandura, coragem temperança e ira.

A educação cívica grega também contava a música como uma das disciplinas fundamentais para a formação do bom cidadão. Platão, em República, escrita por volta de 380 a.c., insiste na necessidade de equilíbrio entre os elementos da educação: o excesso de música tornará o homem efeminado ou neurótico. o excesso de ginástica toná-lo-á incivilizado, violento e ignorante. Para entender melhorar o papel da música na educação grega, vá até a LEITURA APROFUNDADA no fim desse post.

O SISTEMA MUSICAL GREGO

A teoria musical grega, ou harmonia, segundo Cleónides e Aristóxeno, se constituía de sete tópicos:

 

  • notas: movimentos da voz humana;

  1. contínuo, em que a voz muda de altura num delizar constante, ascendente ou descendente, sem se fixar numa nota;

  2. diastemático, em que as notas serão mantidas, tornando perceptíveis os intervalos;

  • intervalos: distâncias entre notas;

  1. tons, meio-tons e dítonos (terça).

  2. O diatessarão era o intervalo de quarta, obtido pela formação do tetracorde; e foi um dos três intervalos primários reconhecidos como consonâncias.

  • gêneros: tipos de tetracorde;

  1. diatônico: os dois intervalos superiores eram tons inteiros e o inferior um meio tom;

  2. cromático: o intervalo superior era um semidítono, ou terceira menor, e os dois intervalos inferiores;

  3. enarmônico: o intervalo superior era um dítono, ou terceira maior, e os dois intervalos inferiores eram menores do que meios-tons, quartos de tom, ou próximos do quarto de tom.

  • sistemas de escalas: formadas pela união de tetracordes. É demasiado complexo para discutirmos nessa postagem;

  • tons: podem ser considerados tanto como as divisões da altura do som quanto os tipos de oitava provenientes do sistema de escalas (que formarão os modos);

  • modulação: a forma em que se aplica os modos. Cada um dos 7 modos transmitia uma sensação diferente. Vale a observação que esses modos gregos não correspondem aos atuais modos ‘gregos’, como será abordado quando estudarmos o cantochão;

  1. mixolídio: T T T S T T S

  2. lídio:  S T T T S T T

  3. frígio:  T S T T T S T

  4. dórico: T T S T T T S

  5. hipolídio: S T T S T T T

  6. hipofrígio: T S T T S T T

  7. hipodórico: T T S T T S T

  • composição melódica: são as correspondências do ritmo e da forma poética com os modos musicais;

LEITURA APROFUNDADA:

Como vocês já podem perceber, a forma resumida em que trabalho nessa série não é de forma alguma suficiente para desenvolver um panorama completo a respeito dos temas trabalhados. O básico que é aqui escrito tem o objetivo de situar o leitor no contexto histórico necessário para que um leigo acompanhe as mudanças na música e seja capaz de escuta-la de forma crítica. Se o assunto é de seu interesse, continue sua estudando pelos livros que indicarei no fim de cada post (que inclusive podem ser lidos no books.google), onde vou especificar o capítulo que tratará do assunto. Alguns dos textos que faço referencia também estão sendo linkados ao decorrer do post. Também vou oferecer exemplos musicais para que escutem as transformações musicais de cada período no início de cada postagem para criar uma ideia mais concreta a respeito do tema.

ASPECTO ESTÉTICO: Para aqueles que gostariam de complementar a leitura desse texto com um material mais sólido, indico o primeiro capítulo do livro “Música e Filosofia: Estética Musical” de Lia Tomás, onde a música na formação cívica do cidadão grego pode ser estudada a fundo.

ASPECTO HISTÓRICO: Para aqueles que realmente gostariam de uma perspectiva acadêmica aprofundada no tema e são capazes de uma boa leitura em inglês, recomendo os capítulos I, II e III do livro “Music in the Western World: a history in documents” (Piero Weiss/Richard Taruski, 1984).

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