Nos últimos 50 anos a psicodelia já foi adorada, demonizada, banalizada, comercializada, pesquisada, proibida, esquecida, relembrada, revivida e muito mais. No entanto ela passou por tudo isso e hoje surge um novo interesse popular pela experiência psicodélica. A questão é: qual o grau de legitimidade desse interesse? O que as pessoas esperam de uma experiência psicodélica?

A experiência psicodélica existe há muito tempo, talvez tanto tempo quanto existe o homem. Talvez até mais. O uso de plantas contendo alcaloides e diterpenos psicoativos transcende a nossa contagem do tempo. Indícios encontrados por antropólogos e outros mais nos remetem a um passado muito distante, um passado onde podemos encontrar civilizações e impérios com sua cultura baseada em torno da experiência psicodélica.

 

O passado recente da psicodelia nos remete diretamente aos anos 60. As décadas de 50 e 60 em hipótese alguma foram os primórdios da psicodelia, apesar do termo “psicodélico” ter surgido nessa época, elas foram na verdade umas das muitas épocas onde a psicodelia atingiu picos de popularidade. Como uma onda a psicodelia tem altos e baixos, em determinadas épocas ela é popular e sua prática super difundida em outras épocas ela é secreta, underground e quase esquecida. Nos anos 60 aprática da psicodelia esteve muito em voga graças à descoberta de um novo psicodélico, o LSD. Com a descoberta do LSD, a experiência psicodélica estava disponível em qualquer farmácia por um baixo preço. A combinação de fácil acesso, baixa dosagem, forma de usar bastante simples (Bastava pingar uma gota na língua) e efeitos garantidos foi a fórmula que fez com que a Dietilamida do Ácido Lisérgico se espalhasse rapidamente entre os jovens. Muita, mas muita gente entrou nessa. Contudo naquela época havia pouca, e de acesso restrito, literatura psicodélica, sobre o LSD então havia praticamente nenhuma informação. Isso gerou uma multidão de psiconautas de primeira viagem, e ter uma experiência psicodélica sem o menor conhecimento do que se está fazendo é como dirigir um avião sem saber pilotar. Isso significa que quanto mais alto as pessoas iam de mais alto elas caíam.

Houve muitos problemas por conta disso, a maioria consequência do mau uso de psicodélicos e não da substância em si. O mau uso de psicodélicos tem tudo a ver com ignorância, a pessoa não sabe o que é, para que serve, o que causa, como se deve usar, a quantidade que se deve usar, aonde se deve usar, como administrar a experiência e com isso provoca riscos físicos e psicológicos em si e nos outros, que poderiam ser minimizados se o sujeito tivesse alguma informação. A ignorância psicodélica causou muitos transtornos sociais e por conta disso uma histeria midiática que culminou na proibição do LSD e na marginalização da experiência psicodélica. Muitos acidentes de viagem aconteceram não porque a substância faz mal, mas por puro despreparo do psiconauta.

A popularização gerou também distorção de valores, a busca por uma nova droga recreativa que provocasse prazer sensorial ganhou proporções gigantescas e fez com que pessoas entrassem nos psicodélicos por motivos completamente disformes. Lá deram de cara com o inesperado, com algo que superava de longe as suas espectativas, que para uns se apresentava como o elixir dos deuses e para outros se apresentava como o portão dos infernos. Isso gerou reações distintas, enquanto uns mudavam toda sua vida por conta dessa experiência, outros passaram a fugir dos psicodélicos como o diabo foge da cruz. Como diria Terence Mckenna “a revelação de um homem é o pesadelo de outro”. No time dos assustados nem todos desistiam de vez da psicodelia, muitos reduziram as doses para um nível onde pudessem controlar a experiência ou tivessem apenas efeitos superficiais como o aumento na intensidade das cores, melhor definição visual, prazer sensorial e etc…

O uso recreativo não precisa ser totalmente descriminado. O uso recreativo de psicodélicos é muitas vezes a porta de entrada para quem já estava em uma busca espiritual, místico, artística, filosófica, científica. Contudo quando a coisa desanda e milhares de pessoas tomam atitudes sem pensar em suas consequências e com o mesmo objetivo pelo qual outros tomam cerveja temos um problema. As substâncias psicodélicas não são brincadeira, elas podem facilitar o acesso ao plano mental e ao espiritual, transcendência da consciência em relação ao corpo e isso não é uma experiência de fácil digestão. Experiências cósmicas, perinatais, biográficas e transpessoais. E toda essa gama de experiências já havia sido legitimada pela ciência como algo de muito valor.

Por isso o principal dano que a histeria psicodélica sescentista causou foi para a ciência. Desde muito tempo os psicodélicos vinham sendo pesquisados sistematicamente por cientistas sérios, químicos, psicólogos, psiquiatras, filósofos, antropólogos, físicos, astrônomos, etnobotânicos, filósofos, artistas, místicos e teósofos. Essas pesquisas tinham o objetivo tanto de decifrar a substância como um todo (Efeitos subjetivos, físicos, e sua química) quanto o de encontrar um uso para essas ferramentas na ciência moderna. Foi o que fez gente como Stanislav Grof que criou não apenas uma psicoterapia com LSD, mas toda uma escola de psicologia baseada nos estados alterados de consciência, a Psicologia Transpessoal. Contudo esses pesquisadores tiveram suas pesquisas interrompidas bruscamente e consideradas ilegais. Isso engessou a pesquisa com psicodélicos e por muito tempo todo o potencial que os psicodélicos tinham para servir a humanidade foi relegado e colocado de lado. A Sociedade Mecânica-Newtoniana havia mais uma vez se colocado em oposição aos fáusticos psicodélicos.

Hoje somos nós que estamos aqui surfando a crista da onda fractal. Um novo interesse pelos psicodélicos surge. Aos poucos pesquisas começam a ser liberadas, o uso da ayahuasca para fins religiosos foi garantido por lei, a estética psicodélica voltar a ser notada nas artes plásticas, na música, na publicidade, nas pessoas. Fóruns, sites e blogs psicodélicos começam a aparecer. Eventos psicodélicos reúnem 10.000 pessoas. Tudo muito bonito, mas perigoso.

Uma característica dessa nova onda psicodélica é a internet, nos anos 60 não havia isso. Com a internet toda a informação passou a ficar a distância de um clique. Eu não preciso mais revirar bibliotecas poeirentas ou ser amigo de um antropólogo alternativo para ter informação sobre substâncias psicodélicas, quer dizer não de imediato. Com todo essa facilidade de informação surge um interesse muito forte pelas substâncias psicodélicas naturais legais. Com as web shops eu tenho acesso a cogumelos e plantas mexicanas, plantas da amazônia, sementes do havaí, cactos e o que mais eu estiver procurando ao redor do mundo. Plantas consideradas sagradas embaladas e comercializadas por um preço acessível e com a segurança e conforto de receber na minha casa.

O uso de psicodélicos naturais se difundiu e agora menos de 10 anos depois da primeira web-shop começamos a ver os resultados. Vídeos no youtube de pessoas utilizando plantas sagradas poderosas de forma profana e tendo bad trips avassaladoras, um comércio lucrativo e desregulado onde qualquer um tem acesso as mais poderosas plantas do planeta. E com isso o olhar do controle paira de novo sobre nós.

O fato da grande maioria dos psicodélicos naturais não serem ilegais não significa que eles são legais, significa que eles não foram regulamentados ainda. Significa que havia um desconhecimento até então da existência desta substância ou que ela foi ignorada por ser de uso restrito. Contudo quando o dinheiro e as massas entram na história a coisa muda. Quando algo ameaça mudar a forma de pensar milhares de pessoas ou ameaça a estabilidade da ilusão da classe média, a mão do controle intervém.

Cometemos hoje os mesmos erros do passado, as lições que os nossos antecessores deixaram sobre excessos, explanações, cuidados, preparação foram esquecidos. As centenas de livro que nos dá uma base teórica para nossa prática não foram lidos e com isso cada um de nós parte do zero em cada experiência. Mas não precisa ser assim, é só agirmos de acordo com a responsabilidade psicodélica.

A responsabilidade psicodélica parte de 3 princípios:

Não colocar a si ou ao próximo em risco.
Buscar conhecimento.
Discrição.

Não colocar a si em risco começa antes de você utilizar qualquer substância psicodélica, antes de viajar você deve pesquisa muito sobre aquilo que você quer usar. Em seguida você deve consultar um psicólogo ou um psiquiatra e fazer uma avaliação para saber se você tem algum tipo de problema mental que possa ser desencadeado por uma substância psicodélica. Você deve procurar lugares seguros, discretos e confortáveis para sua experiência, se possível esteja acompanhado de um guia, isso se torna indispensável se for sua primeira experiência. Ao não se expor ao risco você não expões os outros. Buscar conhecimento são todas as informações e caminhos que você vai buscar durante sua vida. Mas o que tem mais relevância nisso tudo é a Discrição.

Não saia por aí tentando ser compreendido pela sociedade, ao invés disso tente compreender a si mesmo. O conhecimento adquirido através da experiência psicodélica é difícil de ser descrito em palavras porquê ele transcende as áreas que a linguagem já mapeou. As pessoas que não vivenciaram a experiência naturalmente não entenderão e provavelmente te julgarão. Por isso ao invés de sair por aí gritando ao mundo o que você viu, procure os outros como você. Ao fazer as coisas procure ser discreto também, não dê munição para a repressão aumentar. Não dê munição para que as verdadeiras jóias que nós temos na natureza sejam proibidas e regulamentadas. Não dê munição para a mídia, carente de notícias de alto impacto. As revoluções vitoriosas começaram silenciosas. Não destrua a Magia.

Tenha responsabilidade psicodélica. Seja discreto.

[9:36 min] Termostato da realidade

Trecho do documentário "Manifesting the Mind" A experiência psicodélica como fonte de conhecimento; a função do DMT no metabolismo humano comum; cérebro e consciêcia; o significado da "morte do ego"; a experiência humana e as "drogas" são alguns dos temas abordados no vídeo.

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