Rapé

O Rapé é um método de administração de substâncias vegetais através da mucosa nasal, entregue através de um Kuripe, um auto-aplicador onde se coloca o pó que será impulsionado pelo sopro para dentro do seu organismo;
também pode ser aplicado por um txai que já tem mais experiência com a força dos rapés com o aplicador Tipi, nesse contexto ritualisticamente conduzindo em roda de medicinas, podendo acontecer diversas aplicações do rapé e também a sananga, performando-se diferentes formas de purificação, como através de defumação, canto de ícaros/mantras e condução de maracás.


Seu efeito é intenso e instantâneo, já que os alcaloides penetram em sua corrente sanguínea e trafegam até o cérebro com muita facilidade. Na experiencia de Don Secóia, também causa limpezas energéticas profundas, acompanhadas de muita liberação de muco e possíveis vomito e intestino solto;


Existe uma gama de diferentes preparados que podem ser administrados, sendo o mais comum raízes e cascas de árvores queimadas, preparadas com tabaco. Alguns rapés possuem diferentes formas de DMT em sua composição, como é o caso do rapé de Yopo/Paricá (bufotenina), e intensificam a experiência de uma cachimbada, com uma profunda sinergia ritualística por já convocar a força e purificar as intenções, silenciando a mente antes de uma jornada interdimensional!

 

SOPRO DO RAPÉ

Antes de tudo, passar (soprar) rapé requer uma atitude interior de oração, concentração e intenção. Nem sempre a pessoa está energeticamente afinada para aplicar rapé em outro indivíduo, e da nossa parte também não devemos aceitar o sopro de qualquer um.

O rapé é uma medicina sagrada, e como tal carrega as intenções e rezos daquele que o preparou e daquele que o aplica. Todos os processos de uma cerimônia xamânica, desde acender um cachimbo ou uma fogueira, servir um alimento, tocar um instrumento e passar rapé, todos estes atos devem ser acompanhados de profunda conexão com o sagrado. Quando alguém lhe sopra rapé, passa todas as suas influências energéticas diretamente para o campo energético daquele que o recebe.

É bem diferente fazermos uma auto-aplicação usando o kuripe (aplicador pessoal), que é muito mais suave, do que soprar rapé em um tipi (aplicador grande) diretamente nas narinas de outro irmão.

Sobre Feitio de Rapé

(Tashka Peshaho Yawanawa)

Ultimamente, a toda hora, vejo anúncios de “feitio de rapé”, na internet. E fico a me perguntar: de onde esse povo tirou essa invenção? Soa, para mim, mais como ritual de igreja, e não algo produzido por pessoas de tradição que vivem na floresta.

Para fazer rapé, nós, da etnia yawanawa, nunca necessitamos de ritual ou dieta. Isso está mais para uma apropriação cultural do uso do rapé por parte da sociedade não indígena. Infelizmente, por outro lado, também os próprios indígenas estão se aliando a alguns caras-pálidas para fazer o mesmo.

Para deixar as ideias fluírem, vou “tomar” um rapé.

Voltando, lá vai textão.

O rapé, que meu povo chama de Rume, é um parceiro amigo do Uni (ayahuasca) e de outras medicinas usadas em nossos rituais. Os dois trabalham juntos.

Nunca ouvi nenhuma história de se organizar uma rodada de pessoas para fazer rapé, o tal "feitio de rapé", conforme andam anunciando. Isso é invenção, modismo, deturpação do que para nós é simplesmente tradição. Infelizmente, na atualidade, estão produzindo rapé quase que em escala industrial para vender, transformar em mercadoria, ganhar dinheiro.

O rapé, não diferente de outras medicinas indígenas (Uni, pimenta, shabori, yopo etc.), desde tempos imemorias, é utilizado pelos povos indígenas como uma ponte do mundo físico para o mundo espiritual.

É usado em ritual de cura pelo pajé (líder espiritual e curandeiro) e também no cotidiano, Nos anos 1980, muitos povos indígenas acreanos quase já nem utilizavam mais o rapé.

Foi a partir de uma retomada cultural e espiritual, que se deu a partir dos anos 1990, que os povos indígenas voltarem a utilizar o rapé. Hoje é utilizado por quase todos os povos indígenas amazônicos e virou modismo envolvendo brancos e indígenas, adeptos da new age do xamanismo, mais preocupados em deturpar uma sabedoria em troca de lucro fácil.

O rapé é preparado tradicionalmente pelo pajé, pelo aprendiz de pajé ou por alguém de confiança da aldeia que se dedica a fazer rapé pra si e pra comunidade. Não existe o pajé do rapé, o mestre do rapé, ou guru do rapé.

É diferente do Uni. A pessoa que prepara o Uni e serve o Uni tem que ter uma iniciação xamânica, senão é como advogar sem ter registro na OAB.

O fazedor de rapé é uma pessoa que goza da confiança da aldeia, que se senta no canto da casa e começa a moer seu rapé dentro de uma taboca.

Muitas vezes, sozinho em sua cabana, entre um cigarro e outro, joga conversa fora com os amigos que o visitam. Não existe nada desse pretenso pomposo “feitio de rapé”, com dieta, hinos, cocares, etc.

A sociedade ocidental gosta de etiquetar, idealizar, romantizar e rotular as coisas, como “feitio de rapé”.

Soa assim bem de igreja, como feitio de daime. Deixa de ser uma coisa produzida na floresta, no silêncio da floresta. Cheguei até a ver na internet um curso para ser mestre e padrinho de igreja que tomam ayahuasca.

Onde vamos chegar com tanto comércio e modismos?

Como indígena, devemos ter muito cuidado com essa apropriação cultural e o mal uso dessa medicina tradicional indígena.

Mesmo que a cultura não seja estática e esteja sempre em movimento, é importante mantermos a essência e o respeito destes conhecimentos indígenas, pois é tudo o que a gente tem.

Se não tomarmos cuidado e zelarmos por ela, corremos o risco de perde-la, ou perdemos o seu uso original, equilibrado e harmonioso. Sem elas, perdemos a nossa espiritualidade e sem espiritualidade não somos mais povos verdadeiros.

O rapé, depois de preparado, é guardado dentro de cano de taboca e acompanha seu dono para todo lugar que ele vai.

Não se toma/passa/cheira rapé de qualquer pessoa, pois o rapé leva consigo, a força de quem o preparou. Inclusive, antigamente, as pessoas “envenenavam” as outras através do rapé.

Então fica o alerta: muito cuidado de quem você está adquirindo rapé.

Na época em que nosso povo foi contatado pelos patrões seringalistas, ao chegar na maloca de meu avô Antônio Luis Pekunti, o patrão branco, foi obrigado a tomar uma “rapezada” com meu avô.

Ele fez aquilo porque queria conhecer ele, pra saber se ele era uma pessoa do bem ou do mal e para ver se ele era “homem” pra aguentar de pé um rapé Yawanawa. Como o patrão branco não caiu no chão e continuou de pé, ganhou o respeito de meu avô.

O rapé é uma medicina usada pelos nossos antigos para inspirar-se, clarear as ideias. Tomamos rapé logo pela manhã, pedimos a força de nossas ancestrais para abrir nosso dia com coisas positivas, irradiar bons pensamentos, enviando e desejando boas vibrações para nós, para nossos relativos e para o mundo.

Toma (passa/cheira) rapé em diferentes situações. A mais comum delas é: a) rodada de Uni, numa cerimônia com todos da aldeia; b) o pajé toma para soprar numa pessoa enferma; c) o pajé sopra numa pessoa que está levando “uma peia” do Uni) d) toma-se pela manhã para “abrir o dia”; e) para ter inspiração numa conversa de aldeia.

Atualmente tem havido uma grande busca pelas medicinas indígenas. O rapé tem sido uma das medicinas mais difundidas e expandida no mundo. Com ele cresce também a responsabilidade de utilizá-lo com reverência, respeito e cuidado.

Se alguém já participou de uma “dieta do rapé”, ”feitio de rapé”, é preciso saber bem de onde veio essa inspiração: se aquilo surgiu daquele momento, para aquele situação, se foi criada com aquele propósito, para aquele experiência.

A cultura continua em movimento e ela se adapta ao tempo que estamos vivendo. Tudo depende do que estamos abertos a vivenciar.

Aplicação de Rapé na tribo Kuntanawa com Tipi

Rapé: sua utilização e indicações

 

O rapé é um pó feito geralmente de tabaco e outras ervas e cinzas de árvores que são moídos e transformados em um pó fino e aromático que é aspirado ou soprado pelas narinas. Seu uso é ancestral e já esteve bem presente em diversos lugares e épocas. Porém seu aspecto mais interessante é o uso pelas tribos indígenas e pelos caboclos da floresta, que o utilizam para diversos fins, entre eles medicinais e cerimoniais. Tomei contato com rapé através de amigos de jornada que me apresentaram em momentos especiais, onde pude receber e perceber no rapé um aliado de valor, que assim como outras substâncias dos reinos vegetal, mineral e animal que existem nas florestas, estão ai para auxiliar e ensinar aqueles que puderem compreender que onde há vida, existe uma ciência, um ensinamento divino, que pode nos auxiliar em muitos aspectos, inclusive físicos, mentais e espirituais. 

Acredito na importancia da valorização dessa cultura e das medicinas naturais tradicionais e ancestrais existentes e na importancia do resgate histórico e preservação desses conhecimentos que correm o risco de desaparecer em meio a atual banalização de valores e de tudo que é simples e natural, que vivemos hoje. 



O TABACO
 O tabaco aqui citado, não é industrializado, e sim o Tabaco Xamânico,uma planta ancestral. O Tabaco sempre foi considerado pelos índios como uma Planta de Poder, porém caiu em mau uso pelos brancos, perdendo sua força original e seu poder, sendo usado de forma viciante, responsável por terríveis males no organismo.

O tabaco selvagem é uma planta muito poderosa e curativa, em seu estado original e na forma correta de sua utilização. O tabaco é considerado uma das plantas mais sagradas do xamanismo. Ele fumado no Cachimbo Ritualístico, carrega as preces para o Universo.

É usado para fazer oferenda aos guardiões, ao Grande Mistério, etc. Fumar tabaco ( em ritual ) é evocar o Plano Espíritual.

Desde a aparição da Mulher Búfalo Branco para os nativos norte-americanos, o tabaco é considerado uma planta que traz claridade. Ele é o totem vegetal da Direção Leste, do Elemento Fogo. E, como tudo que é fogo, é ambíguo. Pode elevar, transmutar ou pode destruir. Quando o tabaco é utilizado espiritualmente, traz purificação, centramento, transforma energias negativas em positivas, serve de mensageiro. Quando utilizado como vício pode matar. É utilizado no Xamanismo Universal. No Perú é fumado em rituais na Pipa ( cachimbo ) e na forma de cigarro. Os ayahuasqueiros chegam a dizer que "Sin tabaco! Sin la Ayahuasca!" Geralmente o fumo não é tragado ( tragar é coisa do vício ).

No Perú também extraem o mel de tabaco, um poderoso alterador de consciência.Podemos ver nos rituais afro ( candomblé, umbanda, etc) a utilização do tabaco pela entidades, fazendo purificações, passes, exorcismos, oferecer charutos em despachos,etc.

No Chanumpa (EUA), para cada pitada de tabaco, convida-se um espírito para participar do ritual. Ele também é ofertado para os espíritos, para o fogo, utilizado para abrir portais da mata, honrar a Criação, confeccionar bolsas medicinais, pacote de preces, etc.

O tabaco é uma planta de grande ajuda. Utilizada para defumação ou no Cachimbo Sagrado, ele pode, trazer novos começos para quem quer que o esteja usando ou para quaisquer projetos ou lugares para o qual ele é queimado.

O tabaco é considerado uma das plantas mais sagradas, por muitos povos nativos. Para os nativos norte americanos, quando fumado no Cachimbo Sagrado, ele carrega as preces para os espíritos. Com frequência, é usado para se fazer oferendas para os Espíritos Guardiões. Fumar tabaco é chamar o plano espiritual para ajudar. Segundo Sun Bear, se alguém fuma por diversão, estará continuamente chamando Espírito para sí com um falso alarme. A maior parte do tabaco comprado em lojas é misturado com material químico, nocivo à saude.

Existem estudos que dizem que o rapé tem o poder de ativar o sistema límbico do cérebro. Entre os mateiros brasileiros, eles utilizam-se do rapé, para se harmonizarem com os seres da floresta. Lembrando que o tabaco utilizado é sabiamente escolhido pelos mestres do rapé. O tabaco, que é chamado na região de Porronca, tem várias origens, ao longo do Rio Juruá, e obviamente, alguns se destacam pela qualidade e pela pureza, entretanto, são todos orgânicos, ou seja não levam venenos, pesticidas, herbicidas, defensivos ou outro produto de infame sinônimo na sua produção.

Como podemos perceber o Tabaco é e sempre será um valioso instrumento de Poder e Cura para os males que assombram os seres humanos. Porém, é preciso cuidado e sabedoria em seu uso, para não cairmos nas correntes do vício.

O RAPÉ INDÍGENA

 

O rapé é uma tradição cultural e espiritual dos povos Katukina, Yawanawá e de outras tribos da região. Ele é usado como consagração depois do trabalho, para desabafar, relaxar, esfriar a memória. Ele pode ser usado a qualquer hora e tira o enfado físico mental e espiritual, quando nasce um novo pensamento, uma idéia nova. O rapé é preparado com muito carinho, usando-se tabaco e cinzas de outras árvores, dentre elas o Tsunu. 

 

Dentro da tradiçãoindígena , não se "aspira" o rapé. Ele é sempre "soprado" por outra pessoa ou por quem vai tomar o rapé. Soprado para dentro das narinas através de um instrumento tipo um bambu oco, o Tipí, e aplicado por um pajé ou por outra pessoa e provoca uma forte reação nos mais inexperientes. Seu efeito é rapido e após isso sente-se um grande bem estar e disposição, fora a limpeza das vias aéreas, que ele proporciona. Relatam que o rapé se usa para esfriar o corpo, pois quando se trabalha muito debaixo do sol, ao ir tomar banho de água fria das cacimbas, pode-se pegar um resfriado, e é bom cheirar rapé antes. Além de estimulante, portanto, o rapé também faz baixar a pressão. O rapé também é usado para caçar e para tirar a "panema" (preguiça) e na hora da cerimônia do Uni (ayahuasca). As duas energias se unem e o Uni vem com mais luz, mais perfeito, mais profundo.

 

A pessoa que aplica deve saber o que faz, pois tanto o modo como ele pega o pó da mão com o tipi, a maneira que assopra, e o que pensa quando assopra, influenciam positivamente, ou negativamente o trabalho. Ou seja, o mesmo rapé aplicado por duas pessoas diferentes certamente não será o mesmo rapé e, assim, o efeito também não será o mesmo. Também pode ser aplicado pela própria pessoa com um auto aplicador, um tipi bem curto, denominado Kuripe. Ele é bem curto, e cabe no espaço entre a boca e o nariz, e é pessoal, como escova de dentes.

Jala Neti: Lavando as narinas após a aplicação de Rapé, sugiro que seja feito com soro fisiológico para neutralizar a alcalinização da mucosa

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