
Se pararmos para olhar o universo à distância, veremos que em seus primeiros momentos ele era bem simples, era um espaço cheio de matéria, algo sem caracteres ou características. Era o que na mitologia Hindu se chama de “Turiya” – palavra que descreve algo como “sem atributos”. Leva tempo para ocorrer uma transformação em reinos mais criativos. A pré-condição para a criatividade é o desequilíbrio, o que os matemáticos atualmente chamam de Caos. Através da vida do universo, à medida em que caíam as temperaturas, surgiam estruturas compostas cada vez mais complexas. A partir do estado de fecundidade criativa, manifestava-se mais criatividade. O universo é uma máquina de fazer arte, um motor para a produção de formas cada vez mais novas de se estar conectado, e da justaposição cada vez mais exótica de elementos díspares.
Cada artista é uma antena para o Outro Transcendental. Enquanto seguirmos com nossa própria história para dentro disso e criarmos confluências únicas de nossa singularidade e sua singularidade, nós criamos coletivamente uma flecha a partir da história, do tempo, talvez até a partir da matéria, a qual vai redimir a ideia de que os humanos são bons. Esta é a promessa da arte, e sua realização nunca esteve tão perto do momento presente.
Jiddu Krishnamurti

Jiddu Krishnamurti (1895–1986) foi um pensador e educador indiano que dedicou sua vida a investigar a natureza da mente humana, da liberdade e da transformação interior. Ainda jovem, foi projetado internacionalmente pela Sociedade Teosófica como um possível “instrutor do mundo”, posição que ele recusou publicamente em 1929, dissolvendo a organização criada em torno de sua figura. A partir desse gesto, passou a enfatizar que a verdade não pode ser institucionalizada nem transmitida por autoridades, métodos ou crenças — ela precisa ser percebida diretamente por cada indivíduo.
O núcleo de seu pensamento gira em torno da libertação psicológica do ser humano. Krishnamurti afirmava que o sofrimento nasce do condicionamento da mente por memórias, medos, expectativas e identidades construídas ao longo do tempo. Para ele, não há transformação genuína por meio de sistemas, práticas graduais ou ideologias: a mudança real ocorre quando há uma observação atenta e direta do que é, sem julgamentos, escolhas ou divisão entre observador e observado.
Outro aspecto central de sua obra é a distinção entre o tempo cronológico — necessário à vida prática — e o tempo psicológico, sustentado pela ideia de vir a ser, de melhorar ou alcançar um estado futuro. Segundo Krishnamurti, esse tempo psicológico é uma das principais fontes de conflito, medo e frustração. A liberdade, portanto, não é um objetivo distante, mas algo que pode emergir no instante presente, quando a mente está plenamente atenta.
Krishnamurti também redefiniu o sentido de meditação, afastando-a de técnicas, métodos ou disciplinas. Para ele, meditar é viver em estado de atenção plena, no qual a mente se aquieta naturalmente e se torna capaz de perceber com clareza. Nesse silêncio não imposto, surgem a inteligência, a compaixão e um amor que não se baseia em apego ou dependência.
Ao longo de sua vida, Krishnamurti realizou palestras e diálogos em diversos países e fundou escolas dedicadas a uma educação que estimulasse a liberdade interior e o pensamento crítico. Seu legado permanece atual por propor uma investigação radical da consciência e por afirmar que nenhuma transformação social profunda é possível sem uma revolução interior no próprio indivíduo.
1. Liberdade psicológica absoluta
Para Krishnamurti, não existe liberdade enquanto houver dependência psicológica — seja de:
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religiões
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gurus
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ideologias
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métodos
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tradições
A verdade não pode ser organizada nem transmitida como um sistema. Ela precisa ser vista diretamente, por cada indivíduo.
“A verdade é uma terra sem caminhos.”
2. Observação sem o observador
Um dos pontos mais profundos do pensamento dele:
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O “eu” que observa é parte do que é observado
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Quando há um observador julgando, comparando ou tentando mudar, há conflito
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A transformação real ocorre quando existe atenção total, sem escolha
Nesse estado, o conflito psicológico se dissolve, não é resolvido por esforço.
3. O fim do tempo psicológico
Krishnamurti distingue:
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tempo cronológico (necessário: aprender, trabalhar, planejar)
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tempo psicológico (“vou ser”, “vou me tornar”, “no futuro estarei melhor”)
O tempo psicológico é a raiz do sofrimento, pois sustenta:
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medo
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culpa
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esperança
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ambição
A libertação acontece no agora, não como um processo gradual.
4. Condicionamento e medo
A mente humana é profundamente condicionada por:
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cultura
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linguagem
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experiências passadas
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traumas
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educação
O medo nasce da memória projetada no futuro.
Quando o medo é observado sem fuga nem análise, ele perde força.
5. Amor, compaixão e inteligência
Para Krishnamurti:
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Amor não é apego
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Amor não é prazer
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Amor não é dependência
O amor verdadeiro surge quando o “eu” — com suas exigências e imagens — está ausente.
Esse amor é inseparável de inteligência e compaixão.
6. Meditação como estado natural
Meditação não é técnica:
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não é repetição de mantra
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não é controle da mente
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não é disciplina forçada
Meditação é:
atenção plena ao que é, momento a momento
Quando há silêncio natural da mente, não imposto, surge clareza.
7. Revolução interior antes da exterior
Nenhuma transformação social profunda é possível sem transformação psicológica individual.
Revoluções externas sem autoconhecimento apenas trocam os opressores.
Síntese em uma frase
Krishnamurti propõe que a libertação humana ocorre quando a mente vê a si mesma completamente, sem método, sem tempo e sem autoridade.
15 Frases de Jiddu Krishnamurti (1895-1986)
1 - A intuição é o sussuro da alma.
2 - A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar.
3 - Os governos querem trabalhadores eficientes, não seres humanos. Porque seres humanos pensantes podem ser perigosos para o governo - assim como para as religiões. É por isso que o governo e as organizações religiosas procuram sempre controlar a educação.
4 - Não é sinal de saúde, estar bem adaptado a uma sociedade doente.
5 - O pensamento é tão astuto, tão inteligente, que distorce tudo para a sua própria conveniência.
6 - Quando você chama a si mesmo indiano, ou muçulmano, ou cristão, ou europeu, ou qualquer outra coisa, você está sendo violento. Você entende por que, isto é violento?
Porque você está se separando do resto da humanidade. Quando você se separa por crença, por nacionalidade, por tradição, isto gera violência.
7 - As ideias não são a verdade. A verdade é algo que deve ser testado diretamente, de momento a momento.
8 - O autoconhecimento é o começo da sabedoria, em cuja tranquilidade e silêncio se encontra o imensurável.
9 - Todas as ideologias são idiotas, sejam religiosas ou políticas, pois é o pensamento conceitual, a palavra conceitual, que tem infelizmente dividido os homens.
10 - A essência do ser é o não-ser, e para "ver" a totalidade do não-ser, deve o homem libertar-se do desejo de "vir-a-ser".
11 - A meditação pode ter lugar quando se está sentado num autocarro, caminhando num bosque repleto de luz e sombra, quando o canto dos pássaros ou contemplando o rosto de sua mulher ou do seu filho.
12 - O ambiente é o que somos em nós mesmos. Nós e o ambiente somos dois processos distintos, nós somos o ambiente e o ambiente somos nós.
13 - A vida inteira, a partir do momento em que nascemos, é um processo de aprendizado, não há fim para a educação. Não é que você lê um livro, passa um exame, que termina sua educação.
14 - Onde existe crença, onde existe a persecução de um ideal, não pode existir um viver completo. A crença indica a incapacidade de compreenderem o presente.
15 - Precisas de compreender, de mergulhar profundamente, de examinar, de corpo e alma, com tudo o que tiveres, para encontrares uma forma diferente de viver. E isso depende apenas de ti e de mais ninguém, porque nisto não há nenhum professor, nenhum pupilo. Não há nenhum Líder; não há nenhum Guru, não há nenhum Mestre, ou Salvador. Tu mesmo és o professor e o pupilo; tu és o mestre; tu és o guru; tu és o líder... tu és tudo!
A Arte da Meditação
Trechos selecionados do livro de Jiddu Krishnamurti
A meditação não é um meio para um fim, mas ambos: meio e fim.
Numa tentativa de se evadir dos seus conflitos, o homem tem inventado diversas formas de meditação. Porém, todas elas se baseiam no desejo, na vontade ou na ânsia por obter algo, o que implica conflito e o emprego de esforço a fim de alcançar determinados resultados. Esta luta consciente e deliberada sempre se circunscreve nos limites de uma mente condicionada, que não possui liberdade. Todo o esforço empregue na meditação constitui a sua própria negação. A meditação consiste no término da ação do pensamento; só então pode chegar a existir toda uma dimensão intemporal.
A meditação não é via para experiências únicas nem excepcionais.
Toda a meditação que envolve esforço deixa de ser meditação. Não se trata de nenhum acto de realização nem algo que deva ser praticado diariamente de acordo com um sistema ou método qualquer, para obtenção de um fim almejado. Ao contrário, toda a imaginação e medida devem cessar. A meditação não constitui um meio para atingir um fim; é um fim em si mesma. No entanto aquele que medita deve deixar de existir para que a meditação possa ocorrer.
Silêncio e imensidão andam juntos. A vastidão do silêncio é a imensidão da mente em que não existe um centro.
A meditação é uma das maiores artes na vida, talvez mesmo a maior, mas provavelmente não pode ser ensinada. Nisso reside toda a sua beleza. Não possui técnica alguma nem autoridade sequer. Quando nos observamos e por meio dessa observação aprendemos acerca de nós próprios- sobre o modo como caminhamos, comemos, aquilo que dizemos, toda a bisbilhotice, ódio, ciúme- se de tudo isso ficarmos cientes, sem escolha, tal processo fará parte da meditação. Assim, a meditação pode ocorrer quando nos sentamos no autocarro ou caminhamos pelos bosques, com sua luz e sombras, ou então quando escutamos o canto dos pássaros e olhamos para o rosto da nossa esposa ou filho.
Se não meditardes sereis sempre um escravo do tempo, cuja sombra é a dor. O tempo é sofrimento.
Meditação é trabalho árduo e exige a mais elevada forma de disciplina – e não conformação imitação ou obediência - a disciplina que sobrevem por meio da atenção constante, não só das coisas relativas a nós externamente como também interiormente. Assim, a meditação não é uma atividade de isolamento mas a ação da vida diária, uma ação que exige cooperação, sensibilidade e inteligência. Sem estabelecermos as fundações de uma vida correta, a meditação torna-se uma fuga e, portanto, não tem valor nenhum. Um viver correto não significa seguir a moral social, mas liberdade com relação à inveja, à cobiça e à busca de poder - tudo o que gera inimizade. A liberdade disso não sobrevém pela atividade da vontade mas pela atenção para com isso, por meio do auto-conhecimento. Sem conhecermos as atividades do eu, a meditação torna-se excitação sensual e, portanto, possui muito pouco significado.
Se vos preparardes deliberadamente para meditar isso deixará de ser meditação. Se fizerdes por ser bons, jamais a bondade poderá florescer. Se cultivardes a humildade, ela deixará de o ser.
A procura de experiências transcendentais, mais amplas e mais profundas, é sempre um modo de escapar à realidade de "o que é", do que nós próprios somos - a nossa própria mente condicionada. Por que razão haverá uma mente inteligente e desperta, liberta, ter uma experiência qualquer? Luz é luz; ela não pede por mais.
Meditação é a brisa que entra quando deixais a janela aberta; porém, se o fizerdes deliberadamente, e a convidardes a entrar, ela jamais surgirá.
Coisa extraordinária é a meditação. Se existir algum tipo de compulsão ou esforço, afim de ajustar o pensamento, tratar-se-á de imitação, o que tornará tudo um fardo fastidioso. O silêncio que é desejo, deixa de ser esclarecedor. Quando se torna busca de visões e experiências, então conduz à ilusão e à autohipnose. Somente por meio do florescimento do pensamento e do seu consequente término, a meditação poderá ter significado. O pensamento só pode florescer em liberdade e não através dos padrões sempre crescentes do conhecimento. O conhecimento pode conferir novas experiências e uma enorme sensação, porém uma mente que procura experiência de qualquer tipo é imatura. Maturidade é ser livre de toda a experiência, e deixarmos de nos sujeitar à influência do ser e do não-ser. A maturidade da meditação consiste em libertar a mente de conhecimento, porque este molda e controla toda a experiência. A mente que é uma luz para si mesma não necessita passar por nenhuma experiência. Imaturidade é a ânsia por experiências mais elevadas e vastas, conquanto a meditação é o errar pelo mundo do conhecimento e ser livre dele para poder mergulhar no desconhecido.
A meditação da mente que se encontra completamente silenciosa constitui a benção que o homem sempre procurou. Nesse silêncio ocorre a verdadeira diferença.
A meditação, que é a destruição da segurança, possui uma enorme beleza - não a beleza das coisas reunidas pelo homem nem pela natureza mas a beleza do silêncio. Esse silêncio é o vazio a partir do qual todas as coisas ocorrem e em que passam a existir. Ele é incognoscível. Nem o intelecto nem a sensação podem abrir caminho para o atingir e todo o método para esse efeito é invenção do espirito de cobiça. Todos os caminhos e meios do "eu" calculista devem ser completamente destruídos; todo o avanço e recuo - cujos procedimentos pertencem ao tempo - devem terminar, sem conhecimento do amanhã. Meditação é destruição - é um perigo para todos quantos desejem levar uma vida superficial, uma vida de imaginação e mito.
Temos de descobrir por nós mesmos e não através de quem quer que seja. Tivemos a autoridade de mestres e salvadores mas, se realmente quiserdes descobrir o que é a meditação tereis de abandonar completamente toda a autoridade.
A meditação não tem começo nem fim. Nela não existe realização nem insucesso, nem arrecadação nem renúncia. É um movimento sem finalidade além do espaço e do tempo. Experimentá-la equivale a negá-la, porque aquele que experimenta está ligado ao tempo e ao espaço, ligado à memória e ao reconhecimento. O terreno para a verdadeira meditação está nessa consciência passiva que é liberdade total da autoridade e da ambição, da inveja e do medo. A meditação não possui qualquer sentido - qualquer que seja o significado que se lhe dê- sem esta liberdade nem auto-conhecimento.Enquanto subsistir uma forma de escolha não poderá existir auto-conhecimento.
Faz parte da meditação o cérebro compreender as suas actividades superficiais e ocultas; nisso consiste a base da meditação, sem o que ela se torna uma actividade vazia de significado, conducente à autoilusão e à auto- hipnose. O silêncio é essencial para que ocorra a explosão da criação.
A escolha implica conflito, conflito que impede a compreensão do "que é". Vaguear em torno de fantasias ou de credos românticos não é meditação. O cérebro deve despir-se de todo o mito, de toda a ilusão e segurança, e enfrentar a realidade da falsidade de tudo isso. Não existe distração; tudo é um movimento da meditação.
A meditação é aquela luz da mente que clareia o caminho para a acção. Sem essa luz não pode haver amor.
A meditação não se presta a erguer muros de defesa ou de resistência, para em seguida fenecerem; tampouco é ela talhada segundo um método ou sistema. Qualquer sistema padroniza o pensamento, mas todo o conformismo impede o florescer da meditação. Para que ela desabroche é preciso haver liberdade e findar daquilo que é. Sem liberdade não há auto-conhecimento, e sem auto-conhecimento a meditação não pode ocorrer. Por mais vasto que seja o alcance do pensamento em sua busca de conhecimento, ele continuará a ser estreito e medíocre. A meditação não reside no processo aquisitivo e expansivo do saber, mas viceja na liberdade total, e termina no desconhecido.
Morrer significa amar. A beleza do amor não reside nas recordações do passado nem nas imagens do amanhã. O amor não tem passado nem futuro; aquilo que o tem é a memória. O pensamento é prazer, coisa que não é amor. O amor e a paixão residem bem para além do alcance da sociedade, que sois vós. Morram e estará presente.
Olhem e escutem em silêncio. O silêncio não é o término do ruído; o clamor incessante da mente e do coração não sofre término no silêncio. Não se trata do produto ou resultado do desejo, nem pode ser 13 congregado pela vontade. A consciência no seu todo é um movimento incansável e ruidoso estabelecido dentro das fronteiras da sua própria formação. Dentro destas, o silêncio e a quietude representam o término momentâneo da tagarelice, porém trata-se de uma qualidade de silêncio tocada pelo tempo. O tempo é memória, e nele o silêncio pode ser curto ou extenso porque ele pode medi-lo, dar-lhe espaço e continuidade; e nesse caso torna-se numa outra forma de entretenimento. Todavia isso não é silêncio.
A meditação é aquela luz da mente que clareia o caminho para a acção. Sem essa luz não pode haver amor.
Tudo o que for congregado pela ação do pensamento ainda se encontra dentro da área do ruído, mas o pensamento não pode, de modo nenhum, tornar-se tranquilo. Ele pode construir um retracto do silêncio, e dar-lhe forma e adorá-lo, do mesmo modo que faz com tantas outras imagens da sua criação. Mas a forma desse silêncio é a sua própria negação; os seus símbolos representam a verdadeira negação da realidade.
Neste silêncio, a palavra amor adquire um significado completamente diferente. Este silêncio não está acolá mas onde o observador estiver ausente.
O pensamento deve permanecer imóvel para que o silêncio possa ocorrer. O silêncio é sempre novo mas o pensamento não é, e sendo "velho" provavelmente não poderá penetrar no silêncio que se renova constantemente. Se o pensamento tocar o novo, este tornar-se-á velho. Olhem e comuniquem neste silêncio. O verdadeiro anonimato é procedente desse silêncio; não existe outra forma de humildade. Os vaidosos serão sempre vaidosos ainda que enverguem os trajes da humildade, que os torna ásperos e frágeis.
Distanciai-vos. Distanciar-se do mundo de caos e miséria e no entanto viver nele, imperturbados. Tal só é possível quando possuímos uma mente meditativa, uma mente que vigilante para com a flor e a nuvem. A mente meditativa não está relacionada com o passado nem com o futuro e no entanto é capaz de viver de forma sã com clareza e sensatez neste mundo.
Na meditação não pode haver pensador, o que significa que o pensamento deve findar; esse pensamento que é impelido a seguir em frente, pelo desejo de adquirir um resultado. A meditação nada tem que ver com o alcance de um resultado, nem é questão de respirar de modo particular, nem olhar para o nariz, nem despertar poder para executar determinados truques nem qualquer tolice ou imaturidade dessas. A meditação não é uma coisa apartada da vida; quando conduzimos um carro ou nos sentamos no autocarro, quando conversamos sem nenhum assunto, ou quando caminhamos muito recatadamente pelo bosque ou observamos uma borboleta a ser levada pelo vento e prestamos atenção a tudo isso sem escolha, isso faz parte da meditação.
A crença é superstição. Aquilo que é, o facto não necessita de crença nem de conclusão nenhuma. Contudo isso impede a percepção do que é. O facto importa infinitamente mais, e não a conclusão daí tirada. As actividades da conclusão são totalmente diferentes da acção do que é. Esta acção trás liberdade; a outra é sujeição ao tempo.
A crença é tão desnecessária quanto o são os ideais. Ambos dissipam a energia necessária para o acompanhamento do desdobramento daquilo "que é". Tanto as crenças como os ideais são evasivos do facto, mas pelo escape não pode haver fim para o sofrimento. O fim do sofrimento está na compreensão do facto, momento a momento. Não existe sistema nem método que possibilite tal compreensão; somente através da consciência sem escolha de um facto, isso acontecerá. A meditação que segue um sistema consiste no evitar o facto do que sois. Mas é infinitamente mais importante compreender-vos a vós mesmos- sobre a constante mudança acerca de vós próprios- do que meditar a fim de encontrar Deus ou obter visões, sensações ou ouras formas de entretenimento.
A meditação é realmente muito simples, mas nós complicámo-la. Tecemos uma rede de ideias em torno dela, sobre o que é ou deixa de ser. Mas não é nenhuma dessas coisas. Porque é tão simples ela escapa-nos.
A meditação não é nunca oração; a oração, a súplica, nasce da autopiedade. Oramos quando estamos em dificuldades ou quando existe sofrimento, porém, quando sentimos felicidade e alegria não há súplica. Essa auto-piedade tão intensamente embutida no homem, é a raiz da separatividade. Tudo quanto está separado, ou pensamos ser separadomesmo pela procura de identificação com algo que não o seja- trará somente mais divisão e dor. Dessa confusão fazemos brotar o nosso clamor para os céus, para o nosso marido ou para uma divindade da mente; esse choro pode encontrar uma resposta, porém essa resposta será um eco da auto-piedade, em meio a essa separatividade. O isolamento do pensamento sempre se situa dentro do campo do conhecido; a resposta á oração é a resposta do conhecido. A meditação está longe disso; no seu campo não pode o pensamento penetrar. Não existe separatividade e, como tal, identidade nenhuma. A meditação está na abertura; nela o secretismo não tem lugar. Tudo permanece exposto e claro. Então, surge a beleza do amor.
E, se meditardes assim encontrareis nisso uma extraordinária beleza; actuareis correctamente em todas as situações mas, se não agirdes correctamente num dado momento, isso não terá importância pois sempre podereis fazê-lo uma outra vez- mas não perdereis tempo com o remorso. A meditação é parte da vida e não uma coisa diferente dela.
A meditação não tem começo e, portanto, não conhece fim. Se disserdes: "começarei hoje mesmo a controlar os meus pensamentos, a sentar-me em silêncio numa postura de meditação, a respirar de modo rítmico" então deixar-vos-eis apanhar pelos truques com que nos enganamos. A meditação não é questão de nos deixarmos absorver numa ideia qualquer ou imagem grandiosa; isso só silencia a mente durante algum tempo, como uma criança absorvida com um brinquedo, silenciada por um instante. Porém, assim que o brinquedo deixar de ter interesse, recomeçarão a inquietação e o tumulto. A meditação não reside na perseguição de um caminho invisível conducente a uma qualquer benção imaginária. A mente meditativa é observação- olhar, atender e escutar sem a palavra, sem comentário e sem opinião; ela é atenciosa para com o movimento da vida em toda a extensão da relação, durante o dia todo. E à noite, quando o organismo estiver em descanso, tal mente não terá sonhos, por ter estado desperta durante todo o dia. Somente a mente indolente tem sonhos; só a mente meio adormecida precisa das intimações dos próprios estados. Porém, à medida que a mente observa e atende ao movimento do viver- tanto interior como exterior sobrevém um silêncio que não é suscitado pelo pensamento. Não se trata de um silêncio que o observador possa experimentar; se o fizer e o reconhecer como tal, não mais se tratará de silêncio. Esse silêncio da mente meditativa não se situa nos limites do reconhecimento, pois tal silêncio não tem fronteiras; só existe o silêncio em que o espaço da divisão deixou de existir.
Percepção na meditação sem aquele que percebe significa comungar com a elevação e a intensidade do Imenso. Tal percepção é inteiramente diversa da visão de um objecto sem o observador porque no percebimento da meditação não há objeto e portanto não há experiência.
Essa meditação não pode ser aprendida com ninguém; deveis começar desconhecendo tudo sobre ela, e mover-vos no campo da inocência. O campo em que a mente meditativa pode ter início é o campo da vida de todos os dias: o conflito, a dor e a alegria fugaz. Ela deve começar a produzir ordem aí, e a partir daí mover-se infinitamente. Mas se vos empenhardes somente no estabelecimento da ordem então essa mesma ordem produzirá a sua própria limitação, e a mente será sua prisioneira. Em todo este movimento deveis, de algum modo, começar da "outra ponta"- da outra margem- e não estar sempre preocupado com esta, ou com "como atravessar o rio". Deveis dar um mergulho nessa água sem saber como nadar. Além disso a beleza da meditação está em nunca saberdes onde estais nem onde ides, nem qual o fim.
Sem uma percepção da vida como uma coisa completamente nova ela torna-se uma rotina e um aborrecimento, uma coisa sem sentido nenhum. Assim, a meditação é da maior importância. Ela abre a porta para o indefinível e o imensurável.
Eu posso continuar a descrever a meditação, porém a descrição não é a coisa descrita. Se vos chegardes a ela, pode tratar-se da coisa mais maravilhosa. Cabe a vós aprender ou não tudo sobre ela, olhando para vós, mas nenhum livro nem professor poderá ensinar-vos acerca disso. Não dependais de ninguém nem vos associeis a organizações espirituais, pois temos de aprender tudo isso por nós mesmos. Desse modo a mente aprenderá coisas incríveis. Mas para isso não pode haver fragmentação mas imensa estabilidade, ligeireza, mobilidade. Para uma mente assim não existe espaço e desse modo o viver possui um sentido completamente diferente.
A ânsia de mais experiências, visões, percepções mais elevada, uma ou outra forma de realização, isso leva a que a mente olhe para o exterior, o que não é distinto da sua dependência do meio em que se insere e das pessoas.
A meditação não é o mero controle do corpo e do pensamento nem um sistema de respiração (como o inspirar e o expirar). O corpo deve achar-se calmo, saudável e sem tensão; a sensibilidade do sentir deve ser aguçada, e a mente, deve pôr um término a toda a sua tagarelice, perturbação e tactear. Não é pelo organismo que devemos começar mas antes tendo consideração pela mente, com suas opiniões, preconceitos e auto-interesse. Quando a mente se acha saudável e cheia de vitalidade e vigor então a sensibilidade será elevada e tornarse-á extremamente apurada. Então o corpo, com toda a sua inteligência natural, não será deteriorado pelo hábito nem pelo gosto e funcionará como deve ser.
A nossa busca é sempre extrovertida: ao buscarmos uma experiência qualquer a mente é sempre extrovertida. Introspecção significa não buscar, absolutamente; mas sim perceber.
Assim, devemos começar pela mente e não pelo corpo, sendo que a mente é o pensamento e a variedade das suas expressões. A mera concentração torna o pensamento estreito, limitado e frágil, quebradiço, mas a concentração acontece como uma coisa natural quando temos consciência dos processos do pensar. Essa consciência não procede do pensador que escolhe e descarta, que mantém e rejeita. Essa consciência sem escolha é tanto o externo como o interno; trata-se de uma mistura de ambos de tal modo que a divisão entre externo e interno desaparece.
Não éramos nós que ali nos encontrávamos mas tão só a observação que decorria. Observávamos os pensamentos que se erguiam e se desvaneciam, um atrás do outro, processo em que o próprio pensamento tomava consciência de si mesmo. Não existe nenhum pensador a observar o pensamento.