Origem e desenvolvimento do violão

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O violão não ocupou sempre o pódio de instrumento mais popular do mundo. A trajetória do instrumento e de seu repertório conta com uma série de ascensões e declínios, transformações e evoluções. Para entendermos como ele conquistou o espaço que tem hoje, precisaremos mergulhar na história que o envolve. Apresento aqui uma breve história do instrumento, contemplando a trajetória de construção dos instrumentos da família até recentemente.

A origem do violão é incerta. Especulou-se muito sobre seus precursores até que Emílio Pujol, violonista e musicólogo discípulo de Tárrega, realizasse suas pesquisas e sistematizasse suas conclusões em uma de suas conferências (publicada como “La guitarra y su História”) em Paris, no ano de 1929. Foram levantadas então duas possibilidades para sabermos de onde veio o violão:

A primeira hipótese afirma que o violão é derivado da Khetara Grega e da Cítara romana (ou Fidícula). Eventualmente no século XIII e XIV, esse instrumento evolui para se tornar a Guitarra Latina, como explica Pujol:

“…seus braços dispostos da forma da lira foram se unindo, formando uma caixa de ressonância, a qual foi acrescentado um braço de três cravelhas e três cordas, e a esse braço foram feitas divisões transversais (trastes) para que se pudesse obter de uma mesma corda a ser tocado na posição horizontal, com o que ficam estabelecidas as principais características do Violão.”

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A segunda hipótese (e a mais aceita e disseminada) diz que o violão é um derivado do Alaúde Árabe, também chamado de Oud, que chega à Península Ibérica pelas invasões muçulmanas que se iniciam no século VIII. Já no século XIII e XIV, este torna-se conhecido por Guitarra Moura, instrumento que inclusive aparece convivendo junto à Guitarra Latina na Península Ibérica em relatos do trovador Afonso X (1221-1284), rei de Leão e Castela.

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Por volta do século XV, o alaúde dá espaço à vihuela. O instrumento passa a figurar em cortes da nobreza, onde acompanhava o canto ou participava em grupos de câmara. Para desvencilhar-se a influência moura (que era descriminada por essa elite) que vigorou até então, mudaram o formato do corpo, antes arredondado, e da mão do instrumento, que se dobrava para baixo. A vihuela era afinada como o alaúde, mas com seis ou sete ordens. Suas cordas (feitas de tripas de animais) eram duplas, com exceção da primeira. Conviveu com a guitarra até o século XVII.

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A Guitarra Renascentista surge como uma versão simplificada da vihuela, que exigia maior perícia do intérprete em seu manuseio. Era um instrumento com pouca atenção de compositores eruditos, mas atendido por um repertório popular à parte. É afinada assim como a vihuela, mas sem a sexta e primeira cordas, uma afinação em quartas como o violão de hoje. Tinha quatro ordens, também com cordas duplas em exceção à primeira. Seu curto braço e pequeno porte davam espaço à oito trastes. O repertório desses instrumentos ainda é tocado em instrumentos de época e no próprio violão moderno de seis cordas. As obras de compositores que se destacam são:

  • ‘El Maestro’ de Luis de Milán (1536)

  • ‘Los seys libros del Delphin’ de Luis de Narváez (1538)

  • ‘Tres Libros de Música’ de Alonso Mudarra (1546)

  • ‘Orphénica Lyra’ de Miguel de Fuenllana (1554)

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Possivelmente a partir da Guitarra Renascentista surge a Guitarra Barroca, com cinco ordens, cordas duplas e afinada como violão. No repertório constam compositores que escreveram para o instrumento e ainda são tocados atualmente:

  • Gaspar Sanz (c.1640–1710)

  • Robert de Visée (c. 1658 – 1725)

  • Santiago de Murcia (c. 1673 – 1739)

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Da Guitarra Barroca, em torno de 1750, surge a Guitarra Romântica. As cordas duplasderam espaço às simples. Afinado como o violão moderno, já é tida como violão. É para esse instrumento que os compositores da “Época de Ouro” do violão compuseram:

  • Aguado

  • Carcassi

  • Carulli

  • Diabelli

  • Giuliani

  • Sor

Na metade do século XIX, a reputação dos grandes mestres da época de ouro já havia se deteriorado. O Piano, desenvolvido e melhorado no século XIX, substituiu a guitarra nas casas aristocráticas e nos ciclos artísticos. A orquestra crescente em tamanho e tecnologia não tinha mais espaço para o volume reduzido da guitarra. Houve então tentativas de melhoramentos na projeção do instrumento por parte de luthiers e entusiastas do violão. Experiências com sete, oito e dez cordas em tentativa de rivaliza-lo com os demais instrumentos.

Essas tentativas encontram seu sucesso em Antonio de Torres, luthier espanhol do século XIX,  que transforma a guitarra romântica quanto à forma e as dimensões. É nesse momento em que surge o violão atual (que passou a ser chamado de violão Torres), a partir do qual diversas outras variedades surgem até hoje. As novas técnicas na construção de violões proporcionam recursos sonoros imprescindíveis para a aceitação do instrumento nos circuitos de música erudita  Nessa situação ocorre reinstaurarão  do violão concertista pela iniciativa da Escola de Tárrega, e, posteriormente, no Século XX, de Andrés Segóvia, Julian Bream e Narciso Yepes. Na América Latina, nomes de destaque no cenário do violão contam com Barrios, Villa-Lobos e Leo Brouwer.

A partir do violão Torres, surge toda uma geração de luthiers que influenciaram a construção de violões durante o século XX. São os principais:

  • Hauser

  • Fleta

  • Ramirez

  • Romanillos

  • Bouchet

  • Humphrey

  • Smallman

 

Atualmente, no século XXI, não há uma hegemonia de nenhum tipo de violão em especial. O violão Smallman, de construção inovadora usando fibra de carbono, é uma das fortes tendências que influenciam os violões modernos.

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